Destilação fracionadaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
O petróleo voltou à primeira linha das nossas preocupações, após um longo período de acalmia. As guerras económicas são piores que as guerras quentes: estas podem terminar com um tratado de paz, mas as rivalidades económicas não têm fim à vista, nem código de conduta, nem mesmo instância supranacional credível para quem recorrer.
A atual crise tem várias origens, que não apenas a escassez e o previsível fim das jazidas. O problema está em que boa parte das reservas de petróleo se encontram em zonas de conflito. Se alguns dos maiores produtores, como a Rússia, os EUA ou a Arábia Saudita, são países considerados estáveis, já a Venezuela, o Irão e o Iraque são focos de tensão, nos quais os interesses externos não são a menor causa.
A Venezuela está num caos; ao adicionar aos problemas atuais mais um boicote, não é garantido que se obtenha a capitulação do regime de Nicolas Maduro, mas a perturbação causada pela diminuição da exportação contribui para a alta dos preços.
As sanções anunciadas pela administração americana ao Irão contribuem também para a alta de preços, pela dificuldade de escoamento dos produtos.
A viragem política no Iraque e a saída dos americanos da Síria também não deixará de causar perturbação nos mercados, contribuindo também para a alta de preços.
A par disso, a produção diminui, quer por decisão dos produtores, quer por dificuldades na extração, quer ainda por imposição externa.
Quem lucrará com isso serão os países exportadores, nomeadamente os três maiores acima referidos.
Quem perderá com isso serão as economias emergentes, bem com a Comunidade Europeia, importador líquido de energia, que verá a sua competitividade diminuída pela alta do preço do petróleo. Ou seja, o embargo ao Irão terá mais impacto na União Europeia do que no próprio Irão, ainda que empresas americanas, como a Boeing, também sofram com as sanções.
Paralelamente, os EUA, que tinham uma política de guardar as suas reservas de petróleo para garantir o futuro, passaram a grandes exportadores, a ponto de deixar dúvidas sobre a sustentabilidade desta medida. É verdade que o deficit da balança comercial pesa nas decisões, mas um património está a ser alienado por uma situação conjuntural.
Tudo isto configura um ambiente de guerra económica, declarada por alguns, negada por outros. Quem são os agressores? Naturalmente, quem espera ganhar com a guerra. Como diriam os célebres detetives Dupond & Dupont, do Tintin, “cherche le crime à qui profite” (a quem aproveita o crime?).
O espírito de guerra económica instalou-se na administração americana, expressa através dos tweeter do seu Presidente, forma anómala de praticar a política externa. A par disso Trump enveredou por um já longo processo de eliminação e nomeação de novos colaboradores, até chegar ao estado atual (até ver).
Do petróleo tiram-se variados produtos, por um processo chamado destilação fracionada. Consiste em destilar o crude, extraindo a diversas temperaturas os diferentes produtos; deste modo, pode-se isolar desde o éter ao alcatrão, separando os componentes a diversos níveis da destilação.
É interessante comparar este processo industrial com o processo político. Também há quem vá paulatinamente afastando quaisquer vozes discordantes, até ter um coro afinadinho a uma só voz; tomando por exemplo um coro, é como regredir da polifonia para o cantochão. Sucede normalmente com os ditadores de jure e de facto, mas não só; há sempre candidatos a messias que não suportam vozes discordantes.
Conta-se que Júlio César mantinha junto de si um escravo que, quando o homenageavam e lisonjeavam, lhe dizia ao ouvido: lembra-te que és velho, gordo e feio. Tirando a situação de escravidão, parece ser uma boa opção para manter as coisas no seu devido nível.
Duas gerações de portugueses viveram à sombra de um homem-providência – e acabaram na cauda da Europa, de que só agora tentam laboriosamente procuram sair. A nossa experiência pode ser comparada com outras paragens, em que homens-providência prometem futuros gloriosos, curiosamente baseados em glórias passadas. Roma será novamente imperial, prometeu Mussolini; teremos um Reich para mil anos, profetizou Hitler.
Não seria mais simples construir apenas um futuro credível e acessível?
Para a construção de um mito é necessária uma equipa, em que o critério prevalecente é o do conformismo com o chefe, mais do que o da competência e do bom senso. O chefe pode mudar, variar, alterar, desdizer-se, contradizer-se: o que importa é estar de acordo, sobretudo no momento certo. Aquilo que na Alemanha nazi se chamava de Führerprinzip, o que, traduzido em português prático, quer dizer que o “Chefe tem sempre razão”.
Assim se foi construindo uma equipa, por eliminações sucessivas, como a extração de derivados de petróleo a diversos andares. De modo a que ninguém se espante por ter nomeado como Conselheiro de Segurança uma figura como John Bolton, aparentemente saído do Parque Jurássico. É a lógica do sistema.
Face ao ambiente de guerra declarada, ou a Europa, como a China, Japão, a própria Rússia e tantos outros atores da cena internacional tomam consciência do que está em causa, ou teremos uma desregulação generalizada cujos resultados estão longe de poder ser previstos, nem mesmo quais serão os vencidos e os vencedores.
Napoleão enfrentou várias coligações utilizando a “manobra por linhas interiores”, atacando um adversário de cada vez, e evitando que concentrassem as suas forças. Ou seja, o inverso de se zangar com toda a gente ao mesmo tempo. Mas, quando a coligação funcionou de fato, Napoleão perdeu.
Nuno Santa Clara













