A Leste Nada de NovoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Leu bem: a Leste, não a Oeste.
“A Oeste nada de novo” é o célebre romance de Erich Maria Remarque, escritor alemão cujas obras foram publicamente queimadas na Alemanha nazi, com o cerimonial digno de um auto-da-fé dos tempos da Inquisição. Nesse livro se dava uma imagem realista da I Guerra Mundial, conforme a experiência do próprio Autor nas trincheiras, julgada imprópria e derrotista por Hitler e seus sequazes.
Mas agora a guerra é outra. Ao som de trombetas, charamelas e atabales (desculpem a deriva histórica, mas foi o que me ocorreu para ilustrar a pompa e circunstãncia), Donald Trump e Kim Jong-un encontraram-se em Singapura para uma cimeira que, ao que muito se apregoa, ficará para a História.
Esperemos que sim, e por várias razões.
A mais natural e óbvia é pela Paz no Mundo. As pessoas de boa vontade, desde o Papa ao Secretário-Geral da ONU, assim o disseram.
A segunda é para acabar com a divisão de um país cortado em dois por uma guerra sem saída. Isso foi já conseguido na Alemanha e no Vietname, mas ainda não em Chipre ou na Coreia.
A terceira tem a ver os os Estados Unidos. Já é tempo de ver o seu Presidente ter um sucesso diplomático, pois até agora a confrontação e o insucesso têm sido o padrão da imagem externa de um país que muitos consideram e têm como referência. Situação anómala, que poderia agora ser revertida.
Talvez por isso, Donald Trump tem-se empenhado em apresentar esta cimeira como a joia da coroa do seu mandato. Com a mal disfarçada crença de que será fácil impor as suas regras a Kim Jong-un. Tudo com a habitual super-abundância de superlativos, a que Trump já nos habituou.
A propósito: seria de criar um novo grau para os adjetivos, já que o abuso do superlativo leva inevitavelmente à sua desvalorização. Assim, aos superlativos absolutos simples e composto seria de acrescentar um outro grau, compatível com todas as línguas, em especial o inglês. Aceitam-se sugestões.
Postas estas questões, vejamos o que transpirou deste primeiro encontro.
Como seria de esperar, nada de substancial. Apenas uma declaração de intenções, do tipo Memorando de Entendimento, a que se seguirão (esperemos) negociações mais substanciais.
Mas a conferência de imprensa do Presidente dos EUA teve aspetos curiosos. Mantendo a tradição, pelas suas palavras dir-se-ia que está tudo resolvido e que foi um sucesso (abstenho-me de adjetivos, ainda mais no superlativo).
Mas nas respostas às perguntas (malditos jornalistas!) foram feitas afirmações curiosas. Que a Coreia do Norte pretendia a desnuclearização (que ela já tinha referido, mas para toda a Península); que iria desmantelar os locais de ensaios nucleares (o que já fez, com transmissão direta na TV); que cessariam os exercícios militares americanos na Coreia do Sul, porque eram caros (curioso argumento!); que o Presidente renunciava à aplicação de trezentas sanções que tinha em carteira (meia dúzia chegavam); que o mais importante era o acordo de repatriação dos mortos americanos da Guerra da Coreia (assunto perfeitamente consensual).
E mais não disse, ou antes, falou, mas não disse.
Não se falou em Direitos Humanos nem no desmantelamento dos mísseis; os primeiros, para não estragar o ambiente de festa, e para não comprometer conversações futuras; os segundos, talvez porque não representam uma verdadeira ameaça para os Estados Unidos, mas apenas para os vizinhos mais próximos (ao contrário do que se apregoou).
Em resumo, A Leste Nada de Novo…
Nuno santa Clara













