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Velha históriaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

A entrada de imigrantes num país de destino, escolhido ou não, tem sempre para os próprios algo de trágico, sobretudo quando desnacionalização não é inteiramente voluntária. A emigração maciça de portugueses nos anos sessenta do século passado é bom exemplo disso.

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Velha história Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Há certas aberrações que julgávamos ter desaparecido da face da Terra, mas que, por artes do demónio, parecem ter sete vidas, como se diz dos gatos, ou sete cabeças, como a Hidra de Lerna, para (re)lembrar a Mitologia grega.
A escravatura é decerto uma dessas aberrações. Julgávamos ter banido tal instituição da face deste Planeta, depois de séculos debate público e da decisão política da abolição peça maioria das nações, mesmo no caso extremo de uma sangrenta guerra civil, como foi o caso na América do Norte.

Portugal teve também a sua parte no comércio de escravos, e não podemos esquecer que uma cláusula do dote de D. Catarina de Bragança, quando do seu casamento com Carlos II de Inglaterra, foi a autorização dada aos navios ingleses de comerciar escravos africanos para as colónias americanas. Mas Portugal foi também uma das primeiras nações a abolir a escravatura.
Sobre este assunto, lembremos um trecho da Crónica da Gomes Eanes de Zurara, sobre uma venda de escravos feita em Lagos, no ano de 1444, relatando as cenas lancinantes da repartição daquela gente pelos compradores, sem atender a qualquer sentimento de compaixão:

“Mas para seu dó ser mais acrecentado, sobrevieram aqueles que tinham cargo de partilha e começaram de os apartarem uns dos outros, a fim de poerem seus quinhões em igualeza; onde convinha de necessidade de se apartarem os filhos dos padres, e as mulheres dos maridos e os dos irmãos dos outros. A amigos nem a parentes não se guardava nenhuma lei, somente cada um caía onde o a sorte levava!”

A atualidade deste texto deriva de duas realidades: a continuação do tráfico de escravos, alimentada agora (ou como sempre?) por guerras internas e externas, denunciado por diversas instituições internacionais; e certos tratamentos dados aos refugiados mais carentes e desprovidos de qualquer apoio, remetidos para uma situação que não anda longe da escravatura.

No tempo de Zurara a escravatura era tradicional, legal, lucrativa. Mas aos escravos, mesmo não tendo direito algum, mesmo estando juridicamente equiparados a objetos, era reconhecida a condição humana. Foi isso que chocou Zurara: mesmo desprovidos de tudo, mesmo oriundos de países distantes e de raças diferentes, tinham laços familiares, amizades, crenças. Recorde-se que existiram mesmo confrarias de escravos (normalmente sob a invocação de Nossa Senhora do Rosário), o que demonstra o reconhecimento da sua condição humana, ainda que diminuída.

A imigração, seja de africanos na Europa, de latinos nos EUA, ou de portugueses por toda a parte, tem um efeito direto na economia: a contenção dos salários. Karl Marx definiu esse conceito na sua obra de referência “O Capital”. Na altura, referia-se ao volume de desempregados e trabalhadores rurais que aceitavam trabalhar nas fábricas a qualquer preço, mantendo os salários a nível baixo (Marx, para mim, é como um médico que acerta no diagnóstico e falha na terapêutica). Os tempos mudaram, os assalariados (pelo menos na Europa) já aprenderam a lidar com a política salarial e social, mas não faltam áreas cinzentas onde os velhos fantasmas andam à solta.

Um grande país como os EUA constitui um bom laboratório para estas tensões sociais. Na Califórnia e estados vizinhos, com uma agricultura de mão-de-obra intensiva, a par da afinidade étnica, os imigrantes latinos são bem-vindos. Nas zonas deprimidas, onde grassa o desemprego, são mal vistos. Nas grandes cidades, o problema dilui-se. Posto desta forma simplista, isto ajuda-nos a compreender algumas das origens e dos apoios do populismo na América.

A entrada de imigrantes num país de destino, escolhido ou não, tem sempre para os próprios algo de trágico, sobretudo quando desnacionalização não é inteiramente voluntária. A emigração maciça de portugueses nos anos sessenta do século passado é bom exemplo disso.
Também a forma como são acolhidos no país de destino varia muito, podendo ir dos braços abertos até às reações mais xenófobas. Como disse o argelino Kamel Daoud, “A pergunta que devemos colocar a nós próprios não é: porque sou mal acolhido; mas é: porque deixo a minha terra?”.

O caso extremo da migração forçada é a escravatura. Entre os séculos XV e XIX, dezenas de milhões de africanos foram compulsivamente levados para as Américas. Mas os descendentes dos antigos escravos sentem-se hoje americanos, tanto ou mais do que os italianos, irlandeses, alemães, portugueses e asiáticos chegados depois deles.

A chegada dos escravos africanos à América não foi muito diferente da narrada por Zurara, acima transcrita; aliás, conservam-se narrativas dos leilões de escravos nos portos americanos que mostram situações semelhantes.
Acabou a escravatura, mas parecem ter ficado alguns tiques dessa era.

Quem viu apartar os filhos menores dos imigrantes na fronteira dos EUA, e tem um pouco a noção de História, não pode deixar de ter um arrepio, decorrente da recordação dos tempos da escravatura. O fantasma dos cativos de Zurara não deixa de assombrar os espíritos.

Sobretudo quando a explicação oficial foi “assim desincentivar a imigração”, tal como antes a explicação era “repartir o lote de acordo com os interesses dos compradores”.
É a velha história: a desvalorização do conceito de Humanidade, face aos imperativos económicos (e a lei do mais forte).

Nuno Santa Clara

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