Si, cariño!Por Nuno Santa Clara
Barreiro
Sem mais!

Por Jornal Rostos
Conheci em tempos um jovem cujas preocupações e ponto de interesse eram bastante diferentes dos meus. Não que nos dessemos mal, ou que tivéssemos dificuldades de comunicação; a título de exemplo, quanto a programas de televisão.
Assim, enquanto eu falava de programas de interesse geral, ele respondia que iria ver, à noite, um programa de “si, cariño”.
O que era isso de “si, cariño”? Pois bem, eram os filmes para adultos (eufemismo para pornográficos, com que ele se deleitava a horas mortas, e em que a frase típica da atriz (?) principal era, na altura julgada própria, como expressão máxima dos sentimentos em jogo, um gemido e sensual “si, cariño”…
Não sou puritano, mas nunca me deu para esse lado. Mas registei a expressão, pelo cómico da coisa.
Adiante.
Segundo recentíssimas notícias, o Governo de Espanha está preparando uma (severa) Lei segundo a qual, se não houver consentimento expresso, uma relação sexual será considerada violação.
Sem mais!
Daí que me dediquei a fazer uma profunda introspeção, para ver se teria sido, ao longo da minha vida, um Homem de Bem, incapaz de torpezas do tipo violação.
E entrei em pânico: não me lembrava de, alguma vez na vida, ter tido um diálogo do género “queres fazer amor comigo?”, a que se seguisse uma resposta precisa, concisa e inequívoca: “sim”, ou até “quero!”.
Nem com namorada, nem com mulher legítima, nem com algum encontro ocasional. O caso hipotético de prostituição seria absurdo, uma vez que, funcionando por pagamento prévio, o acordo está implícito (ainda que sem formalidades legais, fatura-recibo ou NIF), logo não há violação.
Normalmente tudo se passou com sorrisos cúmplices, como resultado lógico de uma sedução (resta saber quem seduz quem), ou como resultado de uma situação reconhecida, em que o sexo é apenas um dos componentes de uma relação mais profunda. É mais normal dizer-se “vamos jantar” do que “queres fazer amor?”, com a correspondente resposta inequívoca.
De modo que a iniciativa de “Nuestros Hermanos” me deixou algo confuso. Será que se perdeu o espírito de romance, tão latino e tão ibérico, em favor de uma relação contratual, tipo “oferta e procura”, sujeita a leis de mercado e obrigações legais?
Não sendo assim, só há uma explicação: quem produziu a lei vive no mundo do “si, cariño”, e não conhece outro.
Talvez daí que o “si” tenha sido considerado obrigatório para uma relação que se pretenderia ditada pelo sentimento, e não por um contrato.
“Si?”
Nuno Santa Clara













