Descascando a cebolaNuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Este é o título português de um livro tornado célebre, publicado em 2006 pelo escritor alemão Günter Grass (1929–2015), Prémio Nobel de Literatura de 1999.
O Autor faz nele um relato autobiográfico do período de 1939 a 1959, ou seja, desde o início da
II Guerra Mundial até o que podemos considerar como a normalização da vida alemã.
Günter Grass escreveu um livro incómodo, considerado por muitos como escandaloso, e porquê?
O Autor foi recuando no tempo, desde as suas recordações de infância, até ao seu alistamento em 1944 nas Waffen SS, ramo militarizado das Schutzstaffel (abreviadamente SS), essa milícia criada inicialmente para proteção de Adolf Hitler, e que evoluiu até criar o seu braço armado, depois tornado um exército paralelo, chegando a contar com 38 divisões de combate, algumas blindadas, que lutaram em várias frentes, tendo sido consideradas como tropas de elite.
Mas não deixavam de ser uma organização do partido nazi, e não aceitavam ordens do comando da Wehrmacht (as Forças Armadas regulares alemãs), o que causou muitos problemas na condução da guerra.
Reconhecer publicamente ter pertencido às Waffen SS foi no mínimo politicamente incorreto. E quando Günter Grass explicou que a maioria do povo alemão apoiava Hitler, e que era de bom tom integrar as Waffen SS, estalou o escândalo.
O Autor utilizou a metáfora da cebola para abordar o tema. Descrever de fora para dentro, camada após camada, até chegar ao âmago da questão. E no fundo estava a posição do povo alemão em relação ao Führer. Escândalo, porquê? Ninguém é ditador sozinho, e Hitler não governou sozinho, não liquidou os judeus e outras populações sozinho, não fez a guerra sozinho. E mais: não foi encontrada nenhuma ordem escrita para matar um judeu que fosse: apenas a diretiva de “enviá-los para Leste”; mas os executantes souberam interpretar essa diretiva, de forma semelhante ao que no meio militar se chama encontrar a “missão restabelecida”.
O estádio de civilização em que se encontrava o povo alemão nos anos trinta não fazia prever o que se passou, e que foi por um lado tão divulgado, como por outro escamoteado (nomeadamente ao povo alemão)..
Nazismo, nunca mais! Os alemães foram “desnazificados” pelas autoridades de ocupação, e parecia que tudo estava resolvido, pelo método de “varrer para debaixo do tapete” - um bom exemplo da “não inscrição” de José Gil.
Até que um descascador de cebolas veio levantar a ponta do tapete.
Seria descabido lançar-mo-nos numa sessão de penitência coletiva. O importante é perceber porque aconteceu, para que não volte a acontecer.
Os movimentos populistas assentam em regra no primado da intuição, sobrepondo-se ao primado da razão. Deste modo se pode contornar a evidência, e negar os factos, invocando argumentos.
Este fenómeno de massas pode também ocorrer numa sociedade democrática; basta invocar, ou até criar, um inimigo externo ou interno, convindo que tenha um mínimo de credibilidade. Assim se procede quando se lança uma “caça às bruxas”, expressão que ultimamente tem sido muito utilizada cá e lá, no desporto (?) e na política.
Um caso típico foi o período conhecido na América por Macartismo, que se estendeu entre 1950 e1957. Um movimento, orquestrado pelo senador Joseph Mcarthy e por Edgar Hoover, então diretor FBI, levou à criação da tristemente célebre Comissão das Atividades Anti-Americanas, que levou a cabo uma verdadeira caça às bruxas.
A histeria coletiva fez arruinar muitas carreiras, provocou a perda de muitos empregos, pôde calar muitas opiniões e conseguiu manchar a reputação dos Estados Unidos. Ainda hoje essa época é objeto de estudos, livros e filmes, que de certo modo procuram “descascar a cebola”, pondo a mesma questão: como foi possível tal estado de coisas no berço da Democracia moderna?
Parece que na América essa cebola não foi devidamente descascada, porquanto as diatribes o atual Presidente contra os meios de comunicação social (salvo algumas pouco honrosas exceções) já obrigaram a uma reação coordenada dos defensores da livre expressão.
Coisas destas não são um exclusivo americano; desde sempre manipular assembleias é uma arte de há muito conhecida, com exemplos bem documentados da antiga Atenas e da Republica Romana. A receita pouco mudou; apenas os meios de comunicação permitem tornar as reações mais globais e quase instantâneas.
Cebolas e receitas: há mais de vinte mil anos que são conhecidas.
Assim sendo, qual é a dificuldade em descascar a cebola? Decerto que faz chorar, mas o resultado vale bem esse sacrifício.
Nuno Santa Clara













