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The Red PoppyPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Mas fica esse gosto amargo do esquecimento. Capacete ou quico camuflado, boina castanha ou outro símbolo, ou mesmo uma flor, nenhum símbolo tem sido utilizado para lembrar o sacrifício de centenas de militares portugueses, cidadãos envolvidos em guerras e campanhas ao longo do século XX.

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The Red Poppy Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Quem seguir os noticiários e outras reportagens feitas em terras de Sua Majestade Britânica, nesta altura do ano, não deixará de reparar que toda a gente, desde a Rainha ao seu mais humilde súbdito, ostenta uma papoila vermelha na lapela ou ao peito, quer se trate de um fato de trabalho, de um uniforme ou de um traje de cerimónia.

Essa papoila vermelha (Red Poppy) tem um simbolismo especial. Foi escolhida a partir de um poema composto numa unidade de artilhara canadiana pelo Major Médico John McCrae, nos campos de batalha da Flandres (por onde andou também o Corpo Expedicionário Português), quando, por falta de capelão, foi incumbido de presidir às últimas homenagens a um tenente, seu amigo, morto em combate. McCrae escreveu, quase de improviso, um curto poema em três estrofes, que se tornou o mais conhecido de todos os escritos durante a I Guerra Mundial.
A primeira estrofe diz assim (tradução do autor):

“Nos campos da Flandres as papoilas florescem
Por entre as cruzes, fila após fila,
Que marcam o nosso lugar, e lá no céu,
As cotovias, cantando corajosamente, voam,
Um fraco som sobre os canhões, cá em baixo”

O enterro e o poema aconteceram no dia 2 de Maio de 1915; deveria ser um dia radiante de Primavera, mas a loucura dos Homens tinha transformado os campos outrora verdejantes numa paisagem lunar, em tons de negro e cinzento, tingido aqui e além pelo vermelho do sangue
Dir-se-ia que a Natureza tinha sido escorraçada, talvez para sempre.

Mas, mesmo naquele ambiente infernal, as cotovias cantavam e as papoilas floriam, porque era a época própria.
Uma lição para os Homens: a Esperança é sempre possível. Para além da violência extrema, da coragem extrema e do medo paralisante, da destruição meticulosa e calculada de uma terra que tinha sido fértil, a Natureza deixava a sua mensagem: é sempre tempo de amor, é sempre tempo de renovo.

Foi isto que inspirou John McCrae, dividido entre a dor de perder um amigo e a constatação de que a Vida continuava, segundo o exemplo das papoilas e das cotovias, ditando-lhe assim um poema que se tornaria universalmente conhecido. Ele próprio haveria de morrer de pneumonia em 1918,vítima daquela epidemia que ceifaria quase tantas vidas como os campos de batalha.

O restante poema não é muito positivo. A segunda estrofe diz:
“Somos os Mortos. Há poucos dias,
Vivíamos, caíamos, víamos o brilho do pôr do sol
Amávamos e eramos amados, e agora jazemos
Nos campos da Flandres”.

Mas foi o espírito da primeira estrofe que venceu, como venceu a Natureza.

Daí que, a partir de 1921, a Red Poppy passasse a ser o símbolo da homenagem aos caídos na Grande Guerra. Adotada por vários países, é no meio anglo-saxónico que tem mais visibilidade, sendo mesmo promovida a venda da Remembrance Poppy para recolher fundos para os veteranos de guerra, incluindo os deficientes.
Entre nós, os da minha idade lembram talvez a o “Dia do Capacete”. A Liga dos Combatentes da Grande Guerra, hoje

Liga dos Combatentes, promovia no dia 9 de Abril, aniversário da Batalha de La Lys, a venda de um pequeno capacete, que se usava ao peito. O produto dessa venda era utilizado para apoio aos antigos combatentes.
Essas ação cívica não teve, infelizmente, a universalidade e a adesão que teve a sus homóloga Red Poppy. Decerto o Estado Novo teve com os antigos combatentes uma relação ambígua: comemorações oficiais, mas discretas; pouco incentivo a iniciativas privadas, ao contrário das associações e federações do Reino Unido ou da França, para citar dois exemplos.

No livro “Deficientes da Forças Armadas - A geração da rotura” é feita uma síntese desse relacionamento, e do alheamento dos poderes públicos da época quanto aos deficientes militares, que esteve na origem da ADFA.
Mas fica esse gosto amargo do esquecimento. Capacete ou quico camuflado, boina castanha ou outro símbolo, ou mesmo uma flor, nenhum símbolo tem sido utilizado para lembrar o sacrifício de centenas de militares portugueses, cidadãos envolvidos em guerras e campanhas ao longo do século XX.
Ao contrário do cravo vermelho (ele próprio criado no rescaldo do fim de uma guerra).

Serão a ingratidão e o esquecimento fenómenos recentes, de uma época de mudança frenéticas?
Nem por isso. Citemos o que escreveu o Padre António de Vieira, no século XVII: “Se servistes a Pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma”.
Lapidar!

Para terminar, a última estrofe do poema:

“Assumam a nossa luta contra o inimigo,
Para vós lançamos, com as mãos sucumbindo,
O facho; sejais vós a mantê-lo bem alto.
Se quebrarem a fé em nós, que morremos,
Não dormiremos, embora as papoilas cresçam
Nos campos da Flandres”.

Nuno Santa Clara

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