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Último abencerragemPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Tive um professor de estratégia que nos explicou que, na guerra e no amor, a suprema arte está na retirada a tempo.
Mas será esta a retirada atempada? Dada a situação de instabilidade que irá criar, dir-se-ia que não.

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Último abencerragem Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Este é o título de um romance do século XIX, escrito por François-René de Chateaubriand, inspirado nos conflitos entre cristãos e mouros na Espanha do século XV. Independentemente da verdade histórica, o “último abencerragem” passou a ser o tipo do cavaleiro patriota, leal, derradeiro defensor da virtude e da honra.

A História recorda alguns “últimos abencerragens”, como Egas Moniz com a corda ao pescoço, mas infelizmente poucos. Mas a História não acabou, ao contrário do que foi anunciado.
Surgiu agora outro candidato ao título, na pessoa do General Jim Mattis, até agora Secretário da Defesa da Presidência de Donald Trump.

O seu anúncio da renúncia ao cargo foi tudo menos pacífico, e só o facto de ser um oficial e cavalheiro o impediu usar outra terminologia para justificar a saída.
Na tradição das Forças Armadas dos EUA, a presença de militares em altos cargos não é raridade. O problema está em combinar a retidão da idiossincrasia militar com os meandros da política, sobretudo quando não se vislumbra um princípio ou fio condutor das decisões de fundo.

Depois da demissão do Chefe de Gabinete de John Kelly, substituído por Mick Mulvaney (o tal que em 2016 chamou a Trump “um ser humano terrível”), Jim Mattis foi considerado “o último adulto” do Governo.
Outra forma de dizer o “último abencerragem”.

Ora vejamos: o que fez entornar o vaso foi a decisão de Donald Trump de retirar todas as tropas da Síria “porque a guerra contra o ISIL estava ganha”. Segundo um comentarista, o Presidente precisava de uma vitória, e esta servia. E também se poupam milhões de dólares num deficit crescente.
Não foi grande surpresa; há algum tempo se vinha desenhando o desempenamento americano na Síria, com o consequente aumento da presença turca, iraniana e russa.

Só que a decisão foi tomada pelo método dos já célebres Tweeter de Donald Trump, ou seja, difunde-se primeiro e depois logo se vê. De fora ficaram conselheiros, agências, aliados, NATO e outros.
Assim se criou um vazio de poder, com as mais diversas reações. Putin apreciou, discretamente, como é o seu estilo. Erdogan aproveitou para ampliar as iniciativas na zona, inclusive de colaboração com o Irão, que obviamente rejubilou. Outros aliados, nomeadamente os europeus, ficaram naturalmente perplexos.

Mas houve dois aliados que não gostaram. Israel vê sair de cena as tropas americanas, que eram uma garantia de não ingerência direta dos iranianos na sua fronteira. Os curdos, traídos e abandonados, já anunciaram que, se forem atacados pelos turcos (o que é mais que provável) se desligarão da luta contra o ISIL, o que, naquela região, significa que passam de aliados a inimigos.

Assim sendo, teremos face a face dois países, Israel e o Irão, um que já dispõe de armas nucleares, e outro que (segundo os próprios americanos) está em condições de as ter, se as não tem já devidamente armazenadas.
Com a agravante de nenhum dos dois primar pela contenção…

Tive um professor de estratégia que nos explicou que, na guerra e no amor, a suprema arte está na retirada a tempo.
Mas será esta a retirada atempada? Dada a situação de instabilidade que irá criar, dir-se-ia que não.
E mais: terá maior impacto no Médio Oriente a retirada dos 1.200 militares americanos da Síria que a retirada total dos militares americanos do Afeganistão (50% já estão anunciados).
Como não admirar o “último abencerragem”?

Nuno Santa Clara

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