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Até amanhã Sr. Alexandre. Bom NatalPor Jorge Fagundes
Barreiro

Alexandre caminhou até à entrada do prédio onde habitava e subiu no elevador até ao terceiro andar. Ao entrar em casa ficou muito admirado por ver as luzes todas acesas. “Bolas, estás a ficar senil! Voltaste a não apagar as luzes!”

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Até amanhã Sr. Alexandre. Bom Natal Por Jorge Fagundes Barreiro

Por Jornal Rostos

Naquele dia 24 de Dezembro de 1990, Alexandre. viúvo na casa dos oitenta, passou, depois do jantar e como era habitual, um pouco de tempo no velho café da esquina da rua onde morava.
Bebeu a bica, conversou um pouco com um dos raros presentes, levantou-se e disse “até amanhã”.

“Até amanhã Sr. Alexandre. Bom Natal” respondeu-lhe o empregado.
Alexandre caminhou até à entrada do prédio onde habitava e subiu no elevador até ao terceiro andar. Ao entrar em casa ficou muito admirado por ver as luzes todas acesas. “Bolas, estás a ficar senil! Voltaste a não apagar as luzes!”
Ao desligar a luz da cozinha olhou para o calendário fixado na parede e...”Bolas, ,outra vez! O que faz ali o calendário de 1970?!
Dirigiu-se ao quarto, tirou a roupa, vestiu o pijama e deitou-se.

“Então, Alexandre? Lá ficaste outra vez no café a dar à língua sem te lembrares que estamos todos à tua espera para a ceia de Natal. E os netos impacientes para a abertura das prendas!”
Assim o interpelou Beatriz, sua mulher, antes de lhe dar o beijinho do costume.
“Desculpa, Beatriz, vou só lavar as mãos”.
Após o que se dirigiu para a sala de jantar onde já estavam a filha Carolina, o genro Diogo e os netos Eugénio e Francisco.
Todos vieram beijar e abraçar Alexandre e a ceia começou.
Canja de galinha do campo, bacalhau com batatas e couve, doces caseiros da época, vinho, água ou sumos, mais um cálice de Porto para os mais velhos.
Terminada a ceia todos foram abrir as suas prendas, com muitos sorrisos, palmas e surpresas.

Agora, disse Beatriz, vamos-nos arranjar para ir à Missa do Galo, os sinos já tocam.
“Esta agora! Quem estará a tocar a campainha com tanta força à meia noite?Já não se pode dormir descansado!”resmungou Alexandre enquanto se levantava e se dirigia à porta de entrada do seu andar. Aí estavam os seus vizinhos do lado: “desculpe, vizinho, mas como a sua porta estava aberta quisemos ver o que se passa. Está tudo bem?”
Alexandre agradeceu o cuidado, fechou a porta, voltou para o quarto e deitou-se.
Mas as lágrimas escorriam pela sua face, miraculosamente vinte anos mais nova por via daquela sonho tão lindo!

Jorge Fagundes

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