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AfrancesadosPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Logo à partida, diríamos que afrancesados sempre houve, e continua havendo, nos mesmos campos da moda e das ciências sociais. Só que a moda talvez seja inócua, mas as ciências sociais não. A menos que a ciência vire moda, e vice-versa.

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Afrancesados Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

A denominação clássica de "afrancesado" foi aplicada, no Portugal no século XVIII, com sentido pejorativo, aos seguidores de tudo quanto era francês, fosse em questões frívolas, como a moda, ou em coisas mais importantes, como a evolução das ciências naturais e sociais.
Logo à partida, diríamos que afrancesados sempre houve, e continua havendo, nos mesmos campos da moda e das ciências sociais. Só que a moda talvez seja inócua, mas as ciências sociais não. A menos que a ciência vire moda, e vice-versa.

Longe vão os tempos da Inquisição, ou os do Intendente Pina Manique, perseguidor dos afrancesados, e os métodos então usados (como os do Estado Novo) não teriam eficácia no século da Informática.
A reação ao que é importado pode ter duas origens: o reacionarismo nacionalista, puro e duro; e o espírito crítico e esclarecido dos que conhecem as realidades, as comparam, e daí tiram as suas conclusões.

Em Portugal, o século XVIII não acabou em 1800: acabou anos mais tarde, com as Invasões Francesas, a Constituição de 1822 e as Guerras Liberais que se seguiram. O apelo ao patriotismo primário, usado na resistência ao invasor em 1808-1810, não travou a mudança da sociedade portuguesa, como alguns pretendiam. Mas a colagem de certas elites ao ocupante francês, em nome das “luzes”, também não deixou boa memória.

Nada melhor que recorrer a um cidadão do Mundo, como foi Eça de Queirós, para ter uma boa perspetiva do que é o “afrancesamento”. Não pelas deambulações do Jacinto de “A Cidade e as Serras” por Paris, morador no 202 dos Campos Elísios (acabando por regressar ao lar ancestral de Tormes, no Douro), mas por duas figuras caricatas, Dâmaso de Salcede, de “Os Maias”e o primo Basílio, do romance homónimo, ambos levemente envernizados pela cultura parisiense, ambos querendo impor, naquela pacata Lisboa do fim do século XIX, os refinamentos da moda e das “coquettes”.

Pois o seguidismo destes dois anti-heróis parece ter continuadores. Houve quem quisesse importar o existencialismo, ou o Maio de 68, ou mesmo o General de Gaulle, ou outras ideias ou figuras, sem aprofundar o significado dessas mesmas ideias ou figuras, e sem ter em conta as diferenças e as realidades de ambas as culturas. Assim eram os Dâmasos ou Basílios, que consideravam comungar da plenitude da cultura francesa através das meias com estrelas bordadas, ou de um véu azul no chapéu nas corridas de cavalos de Algés.

Tivemos agora uma nova importação direta, a dos coletes amarelos (deveria dizer gilets jaunes?).
Lá como cá, juntaram-se pessoas honradas reclamando legitimamente contra o que não acham certo; gente que se quis aproveitar da oportunidade para contestar o sistema; criaturas que queriam dar largas à violência, sob a capa da política, uma vez que no futebol as coisas estão mais difíceis; e quem quisesse tentar a sua sorte no saque de algumas lojas (como aquele de Paris que se ufanava de ter “feito” quatro ou cinco mil euros num dia). À grande e
a francesa.
Mas os brandos costumes de um País sem touros de morte parecem ter vindo ao de cima e, coisa espantosa, havia mais polícias que manifestantes.

E assim se encerrou (esperamos) uma demonstração de folclore importado. Porque “afrancesados geográficos” temos mais de um milhão em emigrantes, e ninguém os viu pelas ruas.
Estariam talvez a guardar as suas casas, carros e outros bens, conquistadas com muito sacrifício.

Nuno Santa Clara

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