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LamentoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Outro impacte ambiental é o do ruído de dezenas de aviões a jato sobrevoando diariamente a baixa altitude o Seixal, Barreiro e Moita, ao invés dos poucos helicópteros e aviões turboélice dos dias de hoje. A qualidade de vida nestes concelhos diminuirá sensivelmente.

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Lamento Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Em Portugal não temos um Muro das Lamentações, como em Jerusalém, talvez porque temos tanto a lamentar que não haveria muro que chegasse. Talvez aquele muro da fronteira EUA-México; mas esse, não parece que vá avante.
Porque me lamento, tal como o Profeta Jeremias, se não está em causa a destruição do Reino de Judá?
Por uma fatalidade histórica, algo entre o Destino, a Providência, e o ADN.
Temos bem enraizada a tendência para o provisório, o improvisado, o desenrascanço.

E nisso somos brilhantes, como o demonstra as inúmeras vezes em que a aplicação dessas virtudes (?) nos livraram de males maiores. Quem andou pelas instâncias internacionais sabe bem do apreço em somos tidos, quando toca a rebate.
Mas isso não invalida a carência de programação a médio e longo prazo (conceitos estranhos para quem o curto prazo já é muito longo).

Quando vim para Lisboa, nos anos sessenta, estava-se a construir o viaduto de Alcântara, sobre a linha do caminho-de-ferro de Cascais. Era provisório, e foi construído em três das pela Engenharia Militar.
Parece que era provisório, mas ainda lá está, mais de 60 anos depois…
Do modo semelhante, D. Fernando I, o Formoso, criou um imposto novo, que incidia sobre o património, a fim de custear as guerras contra Castela – só enquanto estas durassem. Pois bem, esse imposto chamava-se sisa – e ainda cá está…

Com toda a propriedade, disse o Primeiro-Ministro, ao anunciar as obras no aeroporto do Montijo, que os trabalhos sobre o Novo Aeroporto de Lisboa deviam ter sido iniciados há 50 anos. Bem podia esta tirada ser proferida junto ao muro que separa a Assembleia Nacional da residência do PM, assim reeditando o Muro das Lamentações, na versão portuguesa.

Muito portuguesmente, deixou-se saturar o Aeroporto de Lisboa para começar a pensar numa outra solução. Desde que comecei a voar de e para Lisboa, no princípio dos anos sessenta, raras foram as vezes em que não me deparei com uma obra, uma alteração, um novo trajeto, enfim, mais um investimento correspondente a um remendo, uma urgência, um improviso. De certo modo, era até uma espécie de jogo para quem por ali passava: como estará agora o Aeroporto? Onde vou procurar as malas? Onde estarão os táxis?

Começou-se portanto a pensar onde colocar o novo aeroporto. As soluções apresentadas não variaram muito: Ota, Montijo, Alverca, Alcochete e até Beja. Entre elas só um ponto comum: eram todas bases militares, e das propostas exalava um misto de desanuviamento da cena internacional, de desejo de colher os dividendos da Paz, e de um certo antimilitarismo primário.

Ora, nas decisões sobre a localização e a tipologia das bases militares não se basearam em critérios de acessibilidade dos passageiros, de implantação de plataformas logísticas ou de proximidade de centros urbanos.
A Base Aérea da Ota foi escolhida em 1937 para dar proteção a Lisboa, e planeada para os aviões da época: caças biplanos Gloster Gladiator e os algo maiores bombardeiros Junkers Ju86 (estes com um peso máximo de 8200kg). Claro que a base evoluiu, vindo depois a receber aviões maiores e mais rápidos, vindo inclusive a operar caças a jato F-84 e F-86 (mas não aviões pesados).

A Base do Montijo começou no princípio da II Guerra Mundial como Centro da Aviação Naval (a Marinha, tal como o Exército, tinha aviação própria). Com a constituição da Força Aérea, passou a ser a base Aérea nº 6, dedicada à patrulha marítima, busca e salvamento e luta anti submarina (dada as suas origens e localização). Operou aviões de PV2 Harpoon, P2V5 Neptune, mais recentemente P-3 Orion, todos e patrulha marítima, e os DC-6 Skymaster e C-130 Hercules de transporte; ou seja, aviões de médio porte (o peso máximo do C-130 é de 80 toneladas, e o do P3 60 toneladas)

O aeroporto de Alverca teve origem no Parque de Material Aeronáutico, criado em 1918, evoluindo até formar as OGMA, ainda hoje existentes, embora tenha sido também sede de unidades operacionais até à II Guerra Mundial. A sua ação foi sobretudo de fabrico, montagem e reparação de aeronaves, podendo receber aviões de médio porte.
A Base Aérea n.º 11, de Beja, foi criada em 1967 para instrução de unidades da Força Aérea Alemã, passando a receber unidades nacionais a partir de 1987. Tem grandes dimensões e pode operar qualquer tipo de avião.

O campo de Tiro de Alcochete não dispõe de qualquer pista, mas tem uma área considerável, numa zona propícia à implantação de um aeroporto, quer pelas condições do terreno, quer pela proximidade de Lisboa. No entanto, pelos estudos já efetuados, a implantação ideal só englobaria parte do terreno militar.
Em qualquer dos casos, a infraestrutura adaptada ao uso civil implica a deslocação das estruturas a atividades militares aí existentes – a menos que se parta do princípio que não estão ali para nada. Mesmo Alcochete, mesmo marginalmente, ficaria afetado.

As pistas teriam de se preparadas para aviões com pesos muito superiores; o peso à descolagem de um Airbus A-321 é de 97 toneladas, mas um A-330 é de 242 e a do A-380 é de 575 - fora o que está para vir.
Quanto ao resto das infraestruturas (aerogare, manutenção, carga, etc.), teriam de ser tudo feito de raiz.
Uma base aérea pode ser, ao mesmo tempo, um aeroporto civil. Temos o exemplo das Lages, nos Açores, onde a atividade importante da BA 4 coexiste há muito com o tráfego civil. Claro que, em caso de guerra ou emergência, as prioridades mudam.

Tudo isto não passa de um exercício de retórica, uma vez que a decisão já foi tomada, ao que parece com o senão dos estudos ambientais. Isso prende-se com as aves do estuário do Tejo, as mesmas que iam impedindo a construção da ponte Vasco da Gama. Ao que parece, as aves incomodam-se menos com a ponte do que com os mariscadores iligais que por ali abundam.

Os aviões não são um perigo para as aves: estas é que são um perigo para os aviões. Um flamingo que entre num reator à descolagem provavelmente causará uma tragédia. Ora, uma vez que a decisão está tomada, receio que se siga uma campanha de erradicação de flamingos, garças, gaivotas, guinchos e outras aves limícolas, semelhante à lançada pelo Grande Timoneiro Mao Tsé Tung, quando decretou a extinção dos pardais na China, tendo tido como resultado, no ano seguinte, uma praga de insetos que arruinou muitas colheitas.

Outro impacte ambiental é o do ruído de dezenas de aviões a jato sobrevoando diariamente a baixa altitude o Seixal, Barreiro e Moita, ao invés dos poucos helicópteros e aviões turboélice dos dias de hoje. A qualidade de vida nestes concelhos diminuirá sensivelmente.
Quanto a segurança, os mesmos concelhos passarão a partilhar os riscos das populações de Lisboa, Loures e Sacavém quanto à eventual queda de um avião. Até agora, felizmente, o único caso foi o de Camarate, com o atentado de Sá Carneiro.

Em resumo, nenhuma das bases militares corresponde, sem grandes alterações, à transformação em aeroporto civil, e sofrem, à partida, de severas limitações para a sua expansão.
A única solução com pernas para andar seria Alcochete, mas a opção “provisória” pelo Montijo pode vir a condená-la, à semelhança do viaduto de Alcântara.
Por isso me lamento, numa jeremiada sem esperança, já que se baseia numa fatalidade histórica e cultural, ao que parece sem retorno.

Nuno Santa Clara

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