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Um regressoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Para contar a História, há a Árvore e a Floresta. A Floresta é a História erudita, oficial, politicamente correta, que explica sisudamente como tudo aconteceu. As árvores são todos os antigos combatentes, cada um com a sua estória, não menos verdadeira, e decerto mais sentida.

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Um regresso Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Foi possível ver na TV algumas reportagens sobre a presença de militares portugueses na República Centro Africana. As notícias sobre esta participação são pouco frequentes. Não tem havido, felizmente, baixas entre as nossas forças, e deve ser essa a razão da fraca cobertura mediática.

A despertar dessa penumbra, as notícias de uma ação de combate que correu bem. O homem mordeu o cão? Isto de tropa não dá furo (exceto o caso de Tancos), mas certo é que se soube, e lá se exaltou um tanto o orgulho nacional.
Noutra reportagem, assistiu-se ao convívio entre as tropas portuguesas e as crianças de uma povoação, em que os nossos soldados distribuíam pequenas prendas que causavam grande alegria na pequenada.

Para alguém da minha geração, aquela imagem decerto causou uma lágrima no canto do olho. Cenas daquelas eram o quotidiano da chamada Ação Psico Social, uma tentativa de ganhar as populações através da captação da confiança e da melhoria de condições materiais. Só que não havia sequer medicamentos que chegassem (nem lembranças!), e os médicos, enfermeiros e demais tropas davam o que podiam à pequenada, como os concentrados de fruta da ração de combate.
Para contar a História, há a Árvore e a Floresta. A Floresta é a História erudita, oficial, politicamente correta, que explica sisudamente como tudo aconteceu. As árvores são todos os antigos combatentes, cada um com a sua estória, não menos verdadeira, e decerto mais sentida.

O outro lado das guerras são as eventuais consequências. Quando a Guerra começou em 1961 não havia guerra – apenas ações de polícia. Assim, morria-se ou ficava-se deficiente em serviço, não em campanha. Levou tempo a retificar essa atitude, porque não convinha reconhecer que havia uma guerra e porque se poupavam umas verbas, mas ainda hoje existem graves sequelas dessa abordagem redutora, como bem sabem os Deficientes das Forças Armadas.

Hoje, os militares são equiparados a mercenários, porque são voluntários; isto é dito pelos mesmos que impuseram o fim do Serviço Militar Obrigatório. Assim, diminuem eventuais responsabilidades. Tem a mesma lógica que não cuidar de um bombeiro voluntário ferido ou queimado: ninguém o mandou apagar fogos.

O Fim da História não aconteceu, e as ameaças estão cada vez mais presentes.
É bom ver, a décadas de distância, que a aptidão dos militares portugueses em lidar com conflitos de baixa intensidade, e a sua compreensão de que as populações são o verdadeiro terreno dessa guerra, não se modificou.

Nuno Santa Clara

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