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BrigadasPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Mas a situação na Venezuela atingiu níveis inacreditáveis. E as Forças Armadas não são uma instituição estanque: todos têm irmãos, mulheres, filhos, pais, amigos; e, sobretudo, as FA foram criadas para repelir ameaças externas, não para reprimir os cidadãos. E a solução poderá vir, não dos altos comandos, mas dos quadros inferiores.

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Brigadas Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Brigada, na terminologia militar, é a junção de vários regimentos ou batalhões, pertencentes a várias armas. Atualmente uma brigada pode ir até aos 5.000 militares, dependendo do tipo.
Mas há outras brigadas, que ficaram na História.

Ficou célebre, pelos piores motivos, a Brigada Ligeira em 1854, durante a Guerra da Crimeia, pela sua carga executada por elementos de cinco regimentos de cavalaria ingleses, com um efetivo de 607 “sabres”, que sofreram 409 baixas (67% do efetivo!) em poucos minutos, tudo por uma conjugação de incompetência, rivalidade, má informação e erros na transmissão de ordens por parte dos comandos. Como diria Francisco I de França, perdeu-se tudo, menos a honra. Passou à História como um exemplo de desperdício de coragem e recursos por culpa do comando.

Entre nós ficou famosa a Brigada do Reumático, como ficou conhecida a manifestação dos oficiais generais que em 14 de Março de 1974 foram a S. Bento garantir a Marcelo Caetano o apoio indefetível das Forças Armadas. Os então generais Costa Gomes e Spínola, Chefe e Vice-Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, faltaram à cerimónia, e foram demitidos.

Dois dias depois dava-se o levantamento do R.I. n.º 5, das Caldas da Rainha, e pouco depois o 25 de Abril.

Que podem ter em comum estas duas brigadas? Pois bem, um completo desconhecimento da situação real, e a crença de que, como diria o Pangloss de Voltaire, tudo vai bem no melhor dos mundos.
A situação da Venezuela está a entrar num mundo surreal, com dois presidentes, um legal mas ilegítimo, outro ilegal, mas que tudo aponta como legítimo.

Não se pode dizer que é o melhor dos mundos, e a questão complica-se comas ingerências externas. Destas, a dos EUA parece ser a mais viral. A sugestão de Trump de uma intervenção militar seria impensável numa cabeça pensante. O seu conselheiro John Bolton, com a sua figura de sábio louco (só lhe falta ser sábio), foi apanhado, numa reunião, a anotar “5.000 soldados para a Colômbia”. Será que a Colômbia foi ouvida?

Claro que Nicolás Maduro lançou de imediato o grito de guerra: vêm aí os gringos! Tanto basta para que, do Rio Grande à Terra do Fogo, se instale a desconfiança. E assim se pode dissolver uma auspiciosa coligação.
Esta “pèzada” lembra a de George W. Bush, quando disse que os americanos e seus aliados iam atacar o Iraque “numa cruzada”. Sabendo o que pensam os árabes das cruzadas, é fácil calcular o aproveitamento deste dislate para a propaganda de Saddam Hussein.

Desde sempre a estratégia indireta se revelou mais eficaz que a estratégia direta, até em custos humanos e materiais. Tem o defeito de ser menos mediática, quase por definição. Mas, para quem vive na obsessão dos ecrãs de televisão, é preferível perder uma guerra do que estar na segunda fila. Daí as declarações tonitruantes, as sanções (com os consequentes os prejuízos financeiros), e o risco de escalada no conflito – tudo para estar no telejornal das oito.

O problema está em que Donald Trump precisa urgentemente de uma vitória. A dita vitória diplomática na Coreia do Norte desvaneceu-se; a vitória na Síria contra o ISIL, com a correspondente retirada das forças americanas, deu origem à demissão do Secretário da Defesa, general James Mattis; vem agora a saída do Afeganistão, já apelidada de retirada inglória. Resta saber se o Congresso consegue travar esta “vitórias”. Para não falar na vitória na guerra económica com a China…
De modo que o bom seria “bater no ceguinho”, sendo neste caso a Venezuela o bombo da festa.

A célebre Doutrina de Monroe, formulada por este Presidente dos EUA perante o Congresso, em Dezembro de 1823, baseava-se em três princípios: oposição à criação de novas colónias no continente americano; não interferência das nações europeias em questões internas dos EUA; a não participação norte-americana em conflitos envolvendo países europeus. Foi o início da política de isolacionismo, só quebrada durante a I e II Guerras Mundiais. Esta política podia resumir-se no slogan “America for Americans”.

Só que depois o conceito de “America” englobou as Caraíbas, seguindo-se a América Central e finalmente todo o Hemisfério Ocidental. E o moto passou a ser, na prática, “America for North Americans”, com intervenções musculadas em vários os países centro e sul-americanos.

Como sucede, de forma recorrente, na América Latina, as Forças Armadas serão o fiel da balança, para o melhor e para o pior. Que irão elas fazer? Em termos portugueses, farão um 25 de Abril ou um 28 de Maio?
“Todo o Mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”, escreveu Camões num seu soneto.
E se, dando razão ao Poeta, as Forças Armadas da Venezuela optarem pelo legítimo, desvalorizando o legal, como se fez no 25 de Abril?

O futuro da Venezuela depende dos venezuelanos, e só deles. Qualquer ingerência externa só pode acirrar ambas as partes, com risco de regionalização do conflito – a referência de Bolton à Colômbia é sintomática, bem como as preocupações do Papa Francisco.
O regime bolivariano construiu laboriosamente uma máquina de domínio das instituições, incluindo os tribunais, as Forças Armadas, a Polícia, etc. Típico dos sistemas não democráticos, e nós, portugueses, conhecemos bem isso (pelo menos os mais velhos).

Mas a situação na Venezuela atingiu níveis inacreditáveis. E as Forças Armadas não são uma instituição estanque: todos têm irmãos, mulheres, filhos, pais, amigos; e, sobretudo, as FA foram criadas para repelir ameaças externas, não para reprimir os cidadãos. E a solução poderá vir, não dos altos comandos, mas dos quadros inferiores.
Haverá sempre a possibilidade de uma guerra civil. O apelo de Maduro às milícias vai nesse sentido, e qualquer intervenção estrangeira poderá chegar fogo ao barril de pólvora.
Em resumo, ou a Brigada del Reumatico é neutralizada, ou podemos ter alguma Carga da Brigada Ligeiríssima, armada de forquilhas, caçadeiras e alguns revólveres.

Nuno Santa Clara

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