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I have a dreamNuno Santa Clara
Barreiro

Em termos freudianos, quando o Ego se liberta do Super Ego, o sonho pode ditar os caminhos da irracionalidade e da perversão. Na falta de consciência crítica, os impulsos e instintos básicos prevalecem, com resultados catastróficos.

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I have a dream Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

“Eu tenho um sonho”. Estas palavras foram proferidas por Martin Luther King na escadaria do Lincoln Memorial, em Washington, a 28 de Agosto de 1963. A intervenção que se seguiu versava sobre a convivência entre brancos e negros nos EUA, mas a introdução – I have a dream – pela sua singeleza, não isenta de profundidade, passou à História.

O sonho está tanto na base da evolução do Homem, na sua busca de felicidade e progresso, como na base dos piores momentos da Humanidade.
Em termos freudianos, quando o Ego se liberta do Super Ego, o sonho pode ditar os caminhos da irracionalidade e da perversão. Na falta de consciência crítica, os impulsos e instintos básicos prevalecem, com resultados catastróficos.

Na psicologia de massas, salvaguardadas as diferenças, algo de semelhante se passa. Os apelos aos sentimentos primários, que se julgava terem sido esconjurados do léxico dos países com democracia instituída, estão de regresso.
Voltamos assim ao primado da intuição, sobrepondo-se ao da razão.

Quando Hitler se lançava nas suas aventuras militares, as objeções dos militares profissionais eram refutadas pelo círculo de colaboradores próximos do ditador com uma frase tipo “o Führer tem uma grande intuição estratégica”. O resultado foi o que se viu.

Fazendo fé no que conta Bob Woodward no seu livro Medo - Trump na Casa Branca, dele extraem-se três exemplos do primado da intuição:

• De Peter Navarro: “a minha função como economista consiste, na realidade, em tentar fornecer os dados analíticos que confirmem a sua intuição. E nestas questões a sua intuição está sempre certa”.

• De Jared Kushner: “tinha um instinto fantástico e era um génio político”.

• Do próprio Trump, sobre o Afeganistão: “o meu primeiro instinto foi retirar… e tenho um historial de seguir o meu instinto”.

No Reino Unido, durante a campanha eleitoral sobre o Brexit, falou-se de tudo, menos das suas consequências. Discutiram-se de muitas coisas, mas quase todas ligadas aos instintos: medo, xenofobia, supremacia, nacionalismo, etc.

Os prós e contras da saída do Reino Unido da UE ficaram para depois, como se de detalhes se tratasse. Só agora se vai falando dos problemas das duas Irlandas, de Gibraltar, das deslocalização de empresas, da perda de mercados, da fuga de empreses, dos deficits sectoriais, e de outros efeitos perversos do Brexit.
Hitler teve também o sonho da superioridade alemã. Mas talvez nem nos sonhos mais loucos imaginou ver a praça de Francfort ultrapassar a de Londres.
O que será agora conseguido, graças ao Brexit.

Nuno Santa Clara

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