A máquina das gargalhadasPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Em tempos, tive a oportunidade de assistir, por dentro, à gravação de um programa de televisão. Era uma série divertida, com excelentes intérpretes, e o mais divertido era o ambiente nos bastidores, onde reinava a bonomia e a camaradagem. Depois, vim a saber que nem sempre assim acontece.
Havia uma espécie de palco, onde se desenrolava a ação. Por detrás, havia algo de insólito, para um leigo como eu.
Tratava-se de uma espécie de bancada, onde estavam sentadas umas dezenas de pessoas, de ar sisudo. Uns liam o jornal, outros faziam palavras cruzadas, algumas senhoras faziam tricot, enfim, era um ambiente de pacata coletividade.
Perguntei o que era aquilo. Pois aquilo era a chamada “máquina das gargalhadas”, designação algo jocosa de uma atividade necessária. Na medida do decorrer do espetáculo, e seguindo as indicações feitas por cartazes apropriados, aquela gente ria (daí o nome), mas também aplaudia, assobiava, gritava, enfim, produzia o efeito sonoro de fundo pretendido, de modo a dinamizar os telespetadores, deles separados pelo espaço e pelo tempo (tratava-se de uma gravação, não esqueçamos).
Todos os trabalhos são dignos, e aquele também me pareceu ser.
Mas a imagem ficou. Ficou ao ponto de, mais tarde, vir a associá-la a outras cenas, que nada tinham em comum com um saudável divertimento.
Foi quando comecei a ver líderes políticos a prestar declarações em público, rodeados por apoiantes, e/ou candidatos a cargos públicos, que complementavam as palavras do chefe com sorrisos, risos, acenos, aplausos, ao melhor estilo da “máquina das gargalhadas”.
Decerto que as aparições públicas de líderes políticos tem algo de teatral – e, em tempos de populismo, essa componente torna-se dominante, como se viu nos anos 20-30 do século passado, e hoje se torna a ver, com especial ênfase no que se passa além Atlântico.
Para quem foi criado naquele espírito de contenção, tido como apanágio dos que dedicaram a sua vida ao Serviço Público, aquela postura parecerá despropositada.
Mas a História mostra-nos que o fenómeno não é novo. Abundam nas crónicas atitudes do mesmo teor, e portanto temos que viver com isso, como com outras coisas que nos desagradam.
Paguemos então o preço, pois é o preço da liberdade de expressão.
Mas, pelas alminhas, não esqueçamos que são gargalhadas, assobios e aplausos encomendados, como os da “máquina das gargalhadas”.
Nuno Santa Clara













