A quelque chose malheur est bonPor Nuno Santa Clara~
Barreiro
A ideia não é nova; é mesmo tão velha como o conceito de compra e venda.

Por Jornal Rostos
A quelque chose malheur est bon
Ou seja, numa tradução livre, há males que vêm por bem. Embora, no atual panorama, seja difícil descobrir algo de bom.
Crise, palavra grega crisis (κρίσις), depois passada ao latim, significa essencialmente mudança, como por exemplo nas metamorfoses dos insetos, que passam de lagarta a crisálida, e daí a inseto perfeito.
Uma vez que estamos mergulhados numa crise (contra as espectativas otimistas, infelizmente ultrapassadas, do PM britânico e dos Presidentes dos EUA e do Brasil), convém meditar sobre o que pode estar para vir. Porque, por definição de crise, algo tem de mudar.
Os chamados gurus da Economia são quase unânimes num ponto: as crises são um manancial de oportunidades.
A ideia não é nova; é mesmo tão velha como o conceito de compra e venda.
Por exemplo, basta uma seca severa para que os pequenos proprietários se vejam obrigados a vender as suas terras a quem as pode pagar (a baixo preço, naturalmente!), ou seja, os grandes proprietários. O mesmo se passou na Irlanda, com a Crise da Batata (1845-1849), devida a uma praga: um milhão de mortos de fome, e outro milhão de emigrantes, sobretudo para a América; as suas terras foram adquiridas pelos grandes proprietários, para criação de gado (o que, na época, dispensava grandes investimentos).
Também há causas humanas para certas oportunidades. A Revolução Francesa decretou a extinção dos conventos e abadias, e a venda desse património como bens nacionais; naturalmente, foi a burguesia nascente que os adquiriu, e com isso prosperou.
Num Portugal ainda a recuperar das Invasões Francesas e das Guerras Liberais, a venda dos conventos, mosteiros, hospícios e outras propriedades do clero regular (frades e freiras), entre 1834 e 1843, teve o mesmo efeito: quem podia, comprou a baixo preço, e prosperou.
Passando ao momento atual, lembremos que a dança das cotações tem longo historial. E é curioso ver como se comportam os Mercados (com maiúscula!) nestas circunstâncias. E a palavra da moda é volatilidade. Como nunca ninguém consegue seguir o rasto do dinheiro, apesar das maravilhas da Tecnologia, ele anda por aí, aparentemente como navio desgovernado numa tempestade.
Mas parece que há timoneiros experimentados que fazem a diferença. Tal como nos Descobrimentos, quem tem as cartas de navegação é dono do Mundo – e divulgá-las é crime de lesa-majestade.
Assim, assistimos a flutuações de cotação de ações, obrigações, moedas, matérias-primas e outro “produtos”, sem que se possa discernir uma razão clara para essas variações. Não é como em 1929, em foi tudo abaixo: a atual volatilidade tem altos e baixos, que parecem ser a norma em tempos instáveis.
Claro que há (sempre houve) defensores do sistema; para os iniciados, é um modo de vida, e uma questão de sobrevivência pessoal e coletiva. Para o comum dos mortais, aqueles a que tentam evitar o soçobrar das suas poupanças neste mar encapelado, é como tatear na escuridão.
Há sempre uma lógica: pode-se ganhar na Bolsa. E, acrescentemos, no Casino também. Com dois reparos: há roletas viciadas, e qualquer jogador inveterado fala muito do que ganha, mas nunca do que perde.
Mas, se alguém ganhou, foi porque alguém perdeu: é uma conta de soma zero, porque o valor intrínseco é o mesmo.
A título de exemplo, aplicando a teoria das oportunidades criadas pelas crises, uma empresa, depois de ter dispersado o capital em venda de ações, captando as pequenas poupanças, pode agora recuperá-lo a baixo custo, reconcentrando o capital – tal como os terra-tenentes irlandeses no século XIX com as terras dos seus rendeiros.
Comprar na baixa e vender na alta, é a regra do jogo; mas quem conhece as regras?
As variações de cotações são um caso de estudo. Sobem e descem ao sabor de medidas económicas e financeiras anunciadas, mas logo desmistificadas, ou das declarações políticas, depressa descartadas.
No meio do mundo empresarial está o mundo do trabalho. À mercê da volatilidade, do paradeiro dos tera milhões (1 tera = 1,000,000,000,000), que ninguém sabe por onde andam, mas que parecem surgir aqui e ali, já não nos metais preciosos, considerados fora de moda, também não nas matérias-primas, mais previsíveis (exceto o petróleo, apanhado entre duas guerras), mas num universo virtual, como convém. Tão virtual como a saudosa D. Branca; ao menos, contava em milhares de escudos e não em mega ou tera dólares.
Como em qualquer crise, há já quem trabalhe para o pós-crise. Para o bem e para o mal.
Para o bem, porque se torna necessário recuperar a economia, devastada por abrandamentos e paragens que, em certos sectores, se têm revelado catastróficas. Milhões de empregos foram suprimidos, e os efeitos sociais e políticos disso estão longe de ser conhecidos. Para o mal, porque esses milhões constituem um soberbo exército de reserva de mão-de-obra – e aí está uma boa oportunidade, segundo os “bons espíritos”.
Para o bem, porque se provou que sem o sistema clássico, de matriz europeia, de Segurança Social e Serviço Nacional de Saúde, a catástrofe seria ainda pior; mesmo os mais empedernidos neo-liberais tiveram de recorrer a esses sistemas, ou a algo neles inspirado. As disposições tomadas em Portugal sobre os Hospitais Públicos, incluindo os ressuscitados Hospitais das Forças Armadas, são exemplo disso. Para o mal, porque está na forja uma operação de recolha dos despojos, para ser tudo como dantes – ou pior, pela fragilização dos sistemas acima referidos.
Para o bem, porque se aprende com a História, como se aprendeu (muito) nos Estados Unidos com a Grande Depressão e o New Deal, de que será provável uma nova edição, contrariando mais umam vez as doutrinas neo-liberais. Mas, não esqueçamos, a intervenção dos Estados na crise de 2008 foi muito diferente: limitou-se praticamente à área financeira. Para o mal, porque há fortes indícios de há quem pretenda que, pagas as contas pelos contribuintes, tudo voltará ao que era dantes, naquela “dança macabra” de nacionalizar, sanear com dinheiros públicos, e privatizar quando as coisas melhoram.
Esta é a grande questão dos nossos dias: vamos mandar para o lixo as lições aprendidas, ou vamos assisadamente aprender com os factos? Parece haver poucas dúvidas de que o Mundo não será igual após esta crise. Crise, Mudança.
A resposta tem de ser serena, responsável, meditada; e é uma resposta política, no sentido aristotélico do termo (o Homem é um animal político).
Como se disse, a esta crise deve suceder-se algo semelhante a um Plano Marshall, que pode ser global ou regional, coordenado ou disperso. Mas, se disperso, arrisca-se a ser um plano Xi Jinping.
A quelque chose malheur est bon, decerto.
Cabe-nos decidir se aprendemos ou não com as nossas infelicidades.
Nuno Santa Clara













