Loucos de todo o MundoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Da nossa música, a mais antiga e a mais recente, vão-se fixando na nossa memória melodias e letras. E ainda bem que assim é: ilustra a singularidade e perenidade da nossa cultura.
Por essa via me veio à memória um trecho de uma canção da “Ala dos Namorados”:
São os loucos de Lisboa
Que nos fazem duvidar
Que a Terra gira ao contrário
E os rios nascem no mar…
Nestes dias de aceleração da História, com a avalanche de comunicados, reportagens, entrevistas, tweets e afins, é difícil encontrar um fio condutor para enquadrar as declarações de alguns, se não da maioria, dos políticos mais badalados.
Quando se vê anunciar, com pompa e circunstância, as medidas a tomar para apoiar os serviços de saúde públicos e de segurança social, com proclamações feitas pelos mais acérrimos opositores desses serviços, é caso para ficar, no mínimo, perplexo.
Parafraseando aquela frase, de teor apocalíptico, do defunto Mao Ze Dong, haverá uma grande desordem sob os céus?
O conceito de Estado-Providência, com o dever de tutelar a Educação, a Saúde e a Segurança Social, entre outras coisas, marcou a organização dos Estados na Europa e noutras áreas onde a sua influência cultural se foi mantendo. Essa tendência marcou também as associações de Estados, unidos pelo mesmo conjunto de valores.
A ponto de convergiram, pelo menos em teoria, sistemas tão diferentes como os regimes socialistas, democráticos liberais ou mesmo corporativos, todos eles moldados na mesma matriz: a Solidariedade, sucedâneo laico da Caridade, que tipifica as Religiões do Livro, como dizem os muçulmanos.
A exacerbação do individualismo surge assim em oposição aos nossos valores tradicionais – e nem é necessário ser crente de qualquer religião para o constatar.
O fundador da Sociologia, Émile Durkheim, disse que há dois tipos de solidariedade: por semelhança e por divisão de trabalho. A divisão por semelhança leva ao esforço coletivo de defesa; a divisão de trabalho leva à especialização e por vezes à fragmentação. Assim se estabelece uma relação dialética, conceito tão em voga no século XX, e agora um tanto esquecido.
Um efeito colateral do Fim da Guerra Fria foi a ascensão do neo-liberalismo. O fim da confrontação, a euforia da vitória, a noção de “fim da história”, a libertação de recursos antes atribuídos à Defesa, a maior permeabilidade dos mercados: tudo isto se converteu em otimismo, desvalorizando a solidariedade por semelhança (a defesa) e valorizando a divisão de trabalho (o individualismo).
Por outro lado, talvez subliminarmente, havia o sentimento de que as reivindicações sociais eram uma manobra (entre outras) de inspiração externa, provindas de algum Eixo do Mal, para minar um Mundo sadio e capitalista.
Reaganismo, Tatcherismo, Terceira Via: tudo se conjugou para concretização de um Sexto Império, que seria o fechar de um ciclo das realizações sociais típicas da cultura europeia.
Isto é uma espécie de heresia, algo semelhante ao jansenismo dos séculos XVI e XVII. Os jansenistas consideravam que a Graça Divina não era para todos; os neo-liberais consideram que a Sorte e o Sucesso também não são para todos.
Até que duras realidades refrearam tais esperanças, sobretudo depois de 2008.
Ultrapassada a crise (à custa dos desprovidos da Graça, ou da Sorte), eis que renasce com Trump, Johnson e, em parte, Macron (além de, algo atabalhoadamente, nalguns países do Sul e Leste Europeu).
O que poderia alterar a marcha para este futuro risonho? Aparentemente, nada; só uma guerra generalizada, já que as guerras limitadas até são uma boa fonte de negócios.
Mas não. Nada de megatoneladas e megamortos: agora, kilomortos e teradólares, a nível mundial.
É uma grande lição de humildade, uma vez que a pandemia teve um fator equalizador: nasce-se nuzinho, e assim se vai para os cuidados intensivos.
Daí que os discursos se foram modificando, à medida que o mal foi batendo às portas. E já chegamos ao ponto de ver os governos americano e inglês (além de outros mais discretos) a apelar ao apoio dos serviços públicos de saúde, e a decretar prestações sociais, coisas que, há dois meses, seriam heresia.
Será que houve uma conversão, ao estilo da de S. Paulo na estrada de Damasco? Não será muito de crer.
Recordemos o apólogo das duas panelas do Padre António Vieira: levadas na enxurrada (um caso de necessidade!) propõe a panela de ferro à de barro que enfrentem juntas o perigo; mas a de barro foi dizendo que “se topardes vós comigo ou eu convosco, vós quedareis inteira, e eu quebrada”. Ou seja, cada qual com o seu igual.
Daí a desconfiança da sinceridade dos “Loucos de todo o Mundo”, que agora se vêm obrigados a renegar os seus princípios e cantar em coro:
… a Terra gira ao contrário
E os rios nascem no mar…
Mas até quando?
Nuno Santa Clara













