HumanidadePor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Entre os mais antigos vestígios da atividade humana estão os monumentos erigidos para homenagear os mortos. Quaisquer que fossem as crenças dos nossos antepassados, nomeadamente sobre a existência, ou não, de algo para além da morte, esses cultos são entre nós abundantes e bem documentados.
Antas nas regiões graníticas, cistas nas regiões de xisto, tholos de Carenque ou da Quinta do Anjo, sepulturas antropomórficas talhadas na rocha do Centro de Portugal, são outros tantos testemunhos desse culto.
São uma das mais antigas marcas de um conceito de Humanidade, que ainda hoje, felizmente, perdura.
Tempos trágicos trazem o avolumar dos mortos. Peste, Fome e Guerra: a trilogia medieval, que se julgava extinta, continua a despontar, aqui e ali, com uma resiliência que desafia a capacidade humana de lhe fazer frente.
A esta Trilogia juntam-se os fenómenos naturais: terramotos, tsunamis, inundações, avalanches, incêndios, secas. Sempre no sentido de fazer disparar o número de mortos.
No nosso imaginário está sempre presente o Terramoto de 1755. E a figura emergente dessa catástrofe, o Marquês de Pombal, e a sua diretiva lapidar: enterrar os mortos e cuidar dos vivos.
Assim se fez, por vezes recorrendo à violência. Como no caso do Padre Malagrida, jesuíta garrotado e queimado no Rossio em 1761.
Enterrar os mortos, para os portugueses, tem um significado especial. Foi por ação de D. Leonor, mulher de D. João II, que foram instituídas as primeiras Misericórdias. Uma das primeiras preocupações dos seus fundadores foi dar corpo à 7.ª das chamadas Obras de Misericórdia Corporais: enterrar os mortos. Tão importante era, que ainda hoje figura no brasão das Misericórdias: a caveira e as tíbias, a par do escudo nacional.
Portanto, enterrar os mortos e cuidar dos vivos já tinha antecedentes institucionais no tempo do tão elogiado como denegrido Marquês.
A Guerra foi sempre fornecedora de corpos para sepultar. Só que nem todos gozavam de cidadania plena: as figuras importantes eram transladadas e sepultadas com pompa e circunstância; os simples soldados eram enterrados em vala comum, mais como medida de higiene do que pelo reconhecimento do seu sacrifício.
Ou seja, o enterro dos combatentes anónimos era uma questão logística, e não de religião ou moral.
A I Guerra Mundial, a primeira a ser travada em solo europeu com contornos de guerra total, deu origem a um número astronómico de baixas, e lançou a confusão nos espíritos.
Que fazer com os ceifados pelas metralhadoras e pela artilharia, ou seja, pela morte industrial, às dezenas de milhar?
A primeira ideia foi a cremação em massa, com gasolina, na linha da abordagem logística.
Mas algo tinha mudado. As guerras dinásticas, periféricas e limitadas do século XIX tinham acabado: agora, tratava-se de guerras nacionais e totais, com empenhamento direto de todos os cidadãos. Fosse com exércitos de conscrição, como o francês, ou de voluntários, como o inglês, já não era possível lidar com os mortos apenas em termos logísticos.
Assim surgiram os cemitérios militares, a princípio improvisados no terreno, depois metodicamente organizados e mantidos. Está nesse número o nosso Cemitério de Richebourg, no Norte de França, para onde foram transladados militares falecidos oriundos de mais de duzentos cemitérios provisórios.
O monumento mais impressionante é o ossuário de Douaumont, junto ao forte do mesmo nome, homenageando as vítimas da batalha de Verdun. Ali repousam 130.000 militares desconhecidos, franceses e alemães misturados, além de 16.142 campas num cemitério exterior.
A doutrina manteve-se durante e após a II Guerra Mundial, pelo menos na Europa. Os cemitérios militares são lugares de romagem dos antigos combatentes, de todos os quadrantes, irmanados perante a tragédia, e reverenciados por todos os que lutam para preservar a memória.
Cabe aqui referenciar os esforços da Liga dos Combatentes, no sentido de repatriar os nossos mortos e de recuperar os cemitérios militares em terras africanas, alguns datando da I Guerra Mundial nas Colónias – a tal guerra esquecida.
Nem o fim da II Guerra Mundial, nem o enganador “Fim da História”, trouxeram o fim dos extermínios em massa. No Camboja, no Ruanda, nos Balcãs, e noutros teatros menores, as execuções coletivas continuaram, e os subsequentes enterros em vala comum foram a forma de apagar registos, como sucedera nos campos de concentração nazi ou no massacre de Katyn.
Retrocesso da História, ou resiliência da maldade humana?
Dizem que estamos em guerra, agora contra um inimigo insidioso, mas não menos mortífero.
Guerra implica baixas, e os números são assustadores, e não param de aumentar. Naturalmente, isso implica sepultar ou cremar as vítimas, e nalguns casos o panorama, abundantemente apresentado nas televisões, é dantesco: pavilhões desportivos transformados em morgues, comboios militares transportando urnas, caixões de papelão, crematórios em sessão contínua, enterros em valas comuns.
Este último aspeto é chocante. Foram abertas valas comuns na ilha de Hart, em Nova Iorque, a fim de sepultar os mortos não reclamados. As imagens mostram caixões em pilhas de três de altura. Ou seja, se alguém, um dia, quiser reclamar o seu defunto, será bom que não seja o do fundo…
Enterrar os mortos, conforme a 7ª Obra de Misericórdia, acima referida. Mas fica a questão: porque ninguém os reclamou?
É simples: porque, na Civilização do Indivíduo, o Coletivo desvaneceu-se. A Família passou a ser um dado de estatística, ou unidade de conta; e o conceito de Vizinho foi relegado para as brumas da memória. Resta a morte solitária e o enterro anónimo, numa cadeia de montagem eficaz, económica e higiénica.
Ao arrepio do ancestral culto dos antepassados, tão antigo como a Humanidade.
Num misto de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e de 1984, de George Orwell, obras proféticas que deviam ser de leitura obrigatória.
Nuno Santa Clara













