Saltar para o conteúdo
Colunistas

Razão e forçaPor Nuno Santa Clara´
Barreiro

E é este o legado de Donald Trump: a divisão dos EUA, de forma aparentemente irreconciliável, impedindo o diálogo e paralisando a administração, ao arrepio das melhores tradições da vivência democrática.

5 min de leitura
Razão e força Por Nuno Santa Clara´ Barreiro

Por Jornal Rostos

O século XX foi o século de coisas várias. Foi o século do comunismo – ascensão, apogeu, declínio e queda. E foi também o século dos Estados Unidos da América: de potência regional a potência mundial, do isolacionismo ao intervencionismo, da hegemonia no hemisfério à hegemonia global.
Os EUA legaram à Europa os conceitos fundamentais da Democracia que hoje consideramos património universal; não os da nebulosa referência de Atenas, mas os bem documentados dos Pais Fundadores. Embora, num caso e noutro, a Democracia coexistisse com escravatura e grupos sociais privados de direitos, como os índios e certos imigrantes.

Os EUA entraram na I Guerra Mundial vencendo resistências isolacionistas, ajudaram a libertar a Europa do imperialismo alemão, e tornaram-se uma potência mundial. Entraram na II Guerra Mundial vencendo a ressurgência desse isolacionismo, e tornaram-se a primeira potência mundial.
Num e noutro caso, foram guiados pela Força da Razão – e essa Razão deu-lhes a Força para deixar uma marca profunda na evolução da Humanidade.

Mas a Força tem um efeito perverso: tende a legitimar-se a si mesma, e então degenera numa inversão de valores: a Força passa a ser a Razão. O que veio a ser denunciado pelo célebre livro A Arrogância do Poder, publicado em 1966 pelo Senador americano William Fullbright.
No meio da confusão em que se encontram mergulhados os EUA, tornam-se importantes as sondagens sobre os dos candidatos à próxima eleição presidencial. E o que salta à vista é que, mau grado todas as calinadas (um eufemismo) de Donald Trump, ele tem cerca de 41% de apoiantes incondicionais.

A Democracia nos países de raiz anglo-saxónica tem uma característica fascinante: nunca se sabe de véspera quem ganha, porque os eleitos decidem em consciência, ou, no mínimo, votam de acordo com os anseios de quem os elege. Dito de outra maneira, um caso tipo “queijo limiano” não escandalizaria ninguém.
Deste modo, o sistema pôde evoluir sem roturas, numa natural continuidade. Os EUA têm uma Constituição rígida, mas melhorada por uma série de Emendas (melhor seria chamar Aditamentos) que a têm aperfeiçoado, ao longo dos tempos.

A emergência do populismo veio pôr em causa este sistema. Em regra, o líder populista tem fracas bases culturais – se não fosse assim, não contestaria o sistema, procuraria reformá-lo em bases lógicas, dentro de uma matriz cultural assente e aceite. Mas ninguém é Hitler, Mussolini ou Estaline sozinho. Os movimentos de massas, mais ou menos organizados, são incontornáveis, e neles coabitam cérebros perversos e ingénuos militantes, no seu todo fornecendo a massa crítica dos movimentos.
O desenvolvimento das recentes manifestações nos EUA são um case study fascinante.

De uma contestação de base seguiu-se uma fase de quase insurreição, com as quase naturais pilhagens e violências, que ameaçaram o espírito e a legitimidade da contestação. Como sucedeu noutras partes do mundo, como Paris ou Hong Kong, em que se aliaram extremismos políticos com marginalidade pura e dura, ultrapassando a motivação política e social do movimento. Situação exacerbada, no caso dos EUA, pela crise desencadeada pelo Coronavírus.
Como escreveu o pensador inglês Samuel Johnson (1709 -1784), “o patriotismo é o refúgio da canalha”. Frase assassina, mas que nos nossos dias merece ser relembrada. Basta recordar o saque da Embaixada de Espanha em Lisboa, nos idos de 1975.

Mas o espírito cívico veio ao de cima, a partir dos apelos da família do assassinado George Floyd. E as manifestações tornaram-se pacíficas, como por encanto. E para desencanto de quem pretendia tornar o assunto num casus belli e lançar as tropas na rua, numa ação clássica da Força, sem consideração pela Razão.
Com uma lógica perversa: nada melhor que uma guerra, externa ou interna, para tocar a rebate e reunir o Povo à volta de um Chefe. Ignorando, mais que esquecendo, que nos EUA as eleições decorrem mesmo em tempo de guerra.

As forças conservadoras tiraram o tapete de debaixo dos pés ao homem da ideia. Não tenhamos ilusões: os militares americanos são e serão conservadores por natureza, e por isso defendem o legado dos seus antepassados – coisa que os populistas contestam ou simplesmente ignoram. O que, de certo modo, se compreende: porque se há de defender uma Constituição cujo conteúdo se desconhece?
41% dos americanos estão nesta onda, e é aqui que reside o cerne da questão. Decerto que milhões terão dificuldade em chegar a estas subtilezas, mas os eleitos do GOP (Great Old Party, como é conhecido o Partido Republicano) têm uma responsabilidade histórica enorme. Decerto têm surgido algumas fissuras, mas no conjunto o bloco ainda parece ser monolítico.

E é este o legado de Donald Trump: a divisão dos EUA, de forma aparentemente irreconciliável, impedindo o diálogo e paralisando a administração, ao arrepio das melhores tradições da vivência democrática.
As motivações dele são conhecidas: manter-se no poder, dê por onde der. Porque bem sabe que, quando deixar de nomear procuradores, secretários (ministros), chefes de serviços e assessores, cai-lhe o Mundo em cima.

E não se trata apenas do Tribunal da História: há bons motivos para a ação dos tribunais comuns.
Porque, se o Poder determina a Razão, a perda do Poder determina o fim dessa Razão.
Decerto Mussolini sabia escrever bem, mas dele Trump apenas copiou os ademanes, que estavam ao seu alcance.

Nuno Santa Clara

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção