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ConfissãoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Eu, pecador, me confesso.
Confesso que desde que foi anunciada a possibilidade de Donald Trump se candidatar à Presidência dos EUA, fui movido por uma inquietação quase obsessiva. Que o diga a minha família mais chegada, que teve de se habituar a que a primeira frase do dia fosse algo que tinha a ver com a última tirada do dito cujo.

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Confissão Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Em minha defesa, cito um precedente. Winston Churchill teve uma obsessão semelhante quanto a Adolf Hitler, inquietação que se justificou em 1939. E disse depois algo como “alguns pensam que Hitler é como Guilherme II, aquele idoso cavalheiro que derrotámos em 1918; ora, Hitler é Gengis Kan”.

É que há personagens que não se enquadram nos cânones do comportamento civilizado, do Direito Internacional, ou do simples bom senso. E o problema é que os analistas insistem em os avaliar pela perspectiva política, quando a explicação está mais no lado da Psicologia.
Claro que ninguém é ditador sozinho. Há sempre um entourage próximo e uma multidão de admiradores, tendo por diferença que os primeiros sabem bem o que querem, e os segundos apenas o que não querem. Mas funciona.

Por formação profissional, habituei-me a analisar o adversário pelo método consagrado. Primeiro, o que é que ele pode fazer; segundo, o que é o pior que ele pode fazer; terceiro, o que é mais provável que ele faça.
No caso Trump, a tarefa esteve sempre facilitada: era sempre o pior que podia fazer. E assim, contrariando os analistas encartados, que o achavam imprevisível, sempre o achei tão previsível como um eclipse: bastava estar atento.

Daí que uma suspiro de alívio percorreu o Mundo com a vitória de Biden (dele, ou de outro qualquer). Mas torna-se interessante a reação de diversos governos.
Que a Europa em peso (com uma exceção anedótica) tivesse saudado de imediato o resultado das eleições, nada mais natural, embora com visível atropelo das regras diplomáticas: ao fim e ao cabo, havia uma contestação em cima da mesa, embora sem base credível.

A surpresa veio do lado de Benjamin Netanyahu, tido como o aliado mais firme.
Interessante a posição do México e da China. Dado que Trump ainda está em funções, não convém agravar conflitos e arranjar pretextos para o clássico recurso ao inimigo externo, como os coronéis gregos ou os generais argentinos.
Quanto a Vladimir Putin, ninguém gosta de perder, nem a feijões…

Trump agarra-se ao Poder apenas porque não tem alternativas. No campo empresarial está queimado, e o pai já cá não está para lhe acudir. No campo político, é um perdedor, sem hipótese de ganhar a vida a fazer conferências. E só a ideia de ele escrever um livro faria sorrir toda a gente.
E mais: Trump não dividiu só a América: dividiu o próprio Partido Republicano, como se pode ver pelas posições assumidas por figuras gradas do Partido.

Numa situação de normalidade constitucional, o seu futuro estava traçado: um looser, um perdedor, que por sinal é um dos piores insultos na sua própria boca, quer nos tempos dos reality shows, quer nas campanhas eleitorais.
Resta a solução inconstitucional, em desespero de causa.

Se assim o tentar fazer, terá conseguido o máximo do retrocesso: transformar uma grande Democracia, a maior potência mundial, num shithole country, segundo a sua própria expressão.
Pelo que me confesso, mas não me arrependo.

Nuno Santa Clara

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