Saltar para o conteúdo
Colunistas

Vencedores e vencidosPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Depois da saída pouco airosa de Donald Trump da Casa Branca, sem pompa e em más circunstâncias, alguém muito próximo me perguntou o que pensava fazer, agora que a minha principal fonte de inspiração tinha saído de cena.

4 min de leitura
Vencedores e vencidos Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Apesar da apetência do ex-Presidente pela teatralidade, nem se poderá dizer que “saiu pela esquerda baixa”, dadas as suas preferências; quando muito, num jogo de palavras, que saiu por baixo da esquerda.
Sair de cena não significa apagamento; neste caso concreto, por várias razões.

Primeiro, porque esquecer Trump, dando o caso por arquivado, seria como esquecer Hitler, porque morrera no bunker. Há todo um processo histórico que só agora começa, com aquele mínimo de distanciamento e de acesso aos factos, indissociáveis de quem pretende escrever História.

Segundo, porque ele não quer sair de cena, andando à procura de apoios para um processo judicial que deixará Kafka a perder de vista. Entretanto, teve de mudar de advogados (os ratos abandonam o navio).

Terceiro, e talvez o mais importante, porque as forças que ele levantou não desapareceram do mapa, como num simples desmontar da feira, ou fim de festa.

Na verdade, continua a haver nos EUA qualquer coisa como o equivalente a seis ou sete vezes a população de Portugal a acreditar que as eleições foram roubadas. Não as figuras públicas mais mediáticas: essas sabem bem que não foram. Mas a mensagem permaneceu, e o método até já fez escola: os militares do Myanmar depuseram o governo legal e legítimo, porque as eleições de 8 de Novembro haviam sido fraudulentas (três meses de serena meditação para chegar a esta conclusão!).

Da história do Capitólio de Roma ficou o episódio dos gansos: quando os inimigos tentaram atacar a cidade, de surpresa, trepando os muros do Capitólio, os gansos do templo fizerem grande alarido, alertando a os defensores, assim salvando a cidade. Ao que parece, a defesa do Capitólio de Washington estava entregue a patos…
Os novos invasores de capitólios estavam certos da vitória; acaso não tinham eles a Razão e o Chefe? Tão certos que partilharam o êxito nas redes sociais, para memória futura. Só não podiam prever que essa memória futura facilitaria o trabalho dos inquéritos judiciais…

Desmontada a feira, fica o ressentimento. E, para a linha dura, perdeu-se uma batalha, mas não a guerra.
Para grupos como o “QAnon” ou os “Proud Boys”, o Capitólio foi apenas um episódio. E os métodos e argumentos (?) continuam à solta. Bom exemplo disso é a teoria da conspiração envolvendo Bill Gates e o Dr. Anthony Faucy: pegando numa intervenção de 2015 de Bill Gates, em que esta apresentou como maior ameaça para o Mundo um vírus, e não uma bomba atómica (ele não é bruxo; é apenas inteligente), e as (sábias) previsões do Dr. Faucy, foi feita a demonstração que pertenciam a uma cabala, programada há anos, para a perda dos americanos.
Com esta, respiraram de alívio os chineses…

Talvez o leitor se surpreenda com a enormidade da coisa. Mas, voltando às estatísticas, podem contar-se por milhões os seguidores desta Revelação. E Bill Gates e o Dr. Faucy receberam ameaças de morte.
Voltando à saída da ribalta, recordemos a postura do ex-Presidente quando assumiu o Poder. Nada melhor para expressar o que se passou do que a velha canção dos ABBA:
The winner takes it all / The loser´s standing small / Beside the victory / That´s her destiny…
Desandou a roda da Fortuna, e agora his destiny é incerto.

Certo é que, em política, ninguém gosta de perdedores. E não só: recordemos que para Trump, nos seus tempos de reality (?) show, o pior insulto era loser. O perdedor era lançado nas trevas exteriores, onde, metafórica e biblicamente, haveria choro e ranger de dentes.

Além de perdedor, para os investidores, para a linha dura Trump tornou-se, no mínimo, frouxo, e, no limite, traidor, após os ter renegado ainda durante a ocupação do Capitólio.
Há quem defenda que, com o fim do mandato, o processo contra o ex-Presidente se torna desnecessário. Isto, junto com a derrocada política, convidaria a uma desmobilização que teria contornos de um apagamento ou um branqueamento.
Como se disse acima, não parece a atitude correta.

O processo deve seguir os seus trâmites, não por uma questão de vencedores (que habitualmente escrevem a História) e vencidos (que também habitualmente reescrevem a História).
Mas porque há princípios a defender, verdades a assumir e sobretudo lições a tirar para o futuro.
Para que a História não se repita e Myanmar não prolifere, naquelas e noutras paragens.

Nuno Santa Clara

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção