ResiliênciaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Apresentava ele essa palavra antiga quase como um neologismo ou, pelo menos, como palavra da moda.
Inquieto, fui vasculhar fontes seguras. E encontrei: voltar para trás, reduzir-se, ressaltar, brotar. E também, em sentido figurativo, capacidade de superar, de recuperar da adversidade.
Não sendo ele um cultor da nacional tendência contida daquele fadinho Ó tempo, volta para trás, está bom de ver que seria mais no sentido figurado. Ou seja, de como recuperar da adversidade subterrânea de uma amnésia que tem proliferado e alastrado, em jeito de pandemia concelhia.
Mas a coisa pode ter mais implicações. Logo à partida, a insinuação de fundo: a resiliência estaria na moda. Portanto, partindo do princípio “estou na moda, logo existo”, eu deveria ser resiliente.
Mas, parafraseando o sermão do Padre António Vieira sobre a Guerra, “a Moda é aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta”.
De modo que a minha inquietação cresceu. Será que devo ser resiliente? Se sim, o que é ser resiliente? E, sobretudo, como tornar-me resiliente?
Não encontrei quem me desse uma resposta fácil às minha inquietações. E, pior, não encontrei alguém que me guiasse na busca da resiliência.
Segui ao acaso, pelas ruas, ao arrepio das normas de confinamento, buscando alguém com jeitos e ademanes que indicassem a resiliência.
Vãs diligências. Como reconhecer um resiliente? E buscas tresnoitadas, procurei algum site discreto de onde manasse algum indício do âmago da resiliência.
Nada!
Sondei cafés, tertúlias, grupos informais.
Finalmente, por um feliz acaso, ouvi alguém falar em resiliência. Acerquei-me, infiltrei-me, insinuei-me. E consegui! Naquele grupo semiclandestino e seleto, falava-se de resiliência. Exultei, abri toda a alma e apresentei a minha grande aspiração: quero ser resiliente, e estou disposto a tudo para o ser, e para ser aceite em tão ilustre confraria.
Um silêncio gelado percorreu aquele grupo de eleitos. Pensei logo que estaria a queimar etapas, que a entrada para a resiliência exigira uma longa aprendizagem, uma iniciação penosa, uma profusão de votos.
Mas não.
Olharam para mim com um misto de comiseração e escárnio, onde a piedade estava ausente, e finalmente um deles, com mais brandura na alma e nos costumes, disse-me em voz baixa, pausada, mas firme: a resiliência já passou de moda; já ninguém lhe liga.
Raios partam a moda!
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Nuno Santa Clara













