ARTE CONTEMPORÂNEA (2)Entre o puro fáctico e o puro espiritual
Por Rui Monteiro Leite

Por Jornal Rostos
A génese da arte contemporânea coincide em termos históricos com o zénite da Idade Moderna. Não poderia ser de outro modo, uma vez que a arte é inerente ao seu tempo historial, sem o esgotar, antes transcendendo-o.
E assim é, porque não estando a “modernidade” completamente esgotada, também aquilo que num sentido muito lato se designa por “arte contemporânea” não está plenamente constituído.
Acontece que vivemos um tempo do entretanto. Encontramo-nos num momento de viragem sócio-cultural, acelerada e expansiva; procuram-se novos paradigmas e nessa busca é, porventura, uma nova civilização que desponta.
A questão do “fim da modernidade” que se inicia nos anos 80 em meios artísticos e filosóficos, tem antecedentes profundos e profetas muito fortes: a poesia de Fernando Pessoa na sua vertente mística e anagógica; Martin Heidegger com o anúncio do “fim da metafísica” como corolário trágico da história do ocidente; Raymond Aron com a consumação do “fim das ideologias” e do poder das ideias.
Já nos anos 70 , as correntes dominantes do próprio modernismo; marxismo, filosofia analítica, existencialismo, estruturalismo, atomizaram-se e pulverizaram-se. No interior do “Santo dos Santos” da Era Moderna que é a ciência e os diversos modelos de cientificidade enquanto detentores de uma verdade universal e absoluta, surge a refutação do seu dogmatismo operante.
Karl Popper e Hans Khun mostram que as teorias científicas são meros postulados indemonstráveis de pressupostos que seguem axiomas lógico-formais. Ou seja, a ciência com os seus modelos operativos não prova nada. Muito menos uma verdade de carácter gnoseológico ou mesmo epistemológico. Essa pretensa verdade é apenas aceite até ser refutada.
Afinal, chega-se à repugnância da modernidade. A “morte de Deus” às mãos de Nietzsche e a “morte do homem” executada pelos estruturalistas, torna límpido aquilo que constitui o mundo contemporâneo na sensação da era do vazio e na consciência difusa da falta de sentido.
É neste contexto de mundividência fragmentada, de fúria tecnológica, de fome rapinante da natureza e fome real de seres humanos, de fobia económica e esquizofrenia consumista, de relativismo cultural e impasse hitórico-civilizacional, de barbaridade agónico-guerreira e terrores apocalípticos, de espectacular idade esfuziante e alienante da sociedade de comunicação; que a arte contemporânea surge, ressurge e situa-se.
No entanto, apesar das idiossincrasias, aporias e incertezas que a arte possui no seu contemplar holístico ao lado da fenomenologia actual e do seu projecto visionário de uma nova Ontologia, desenvolve-se um processo dialéctico profundo que procura harmonizar os opostos e contrários.
Entre o puro fáctico e o puro espiritual, reside a essência da arte. A arte além de ser actualização do existente é Ontologia em acto. E assim, a arte contemporânea torna-se reveladora do advento dos novos tempos.
Rui Monteiro Leite
Quadro
Silva Guerreiro Contemporary Art Gallery
Rui Monteiro Leite, O Arquétipo Primevo II-27, Mixed/Paper/Epvc, 2007













