A placaPor Emanuel Góis
Barreiro

Por Jornal Rostos
Da minha parte, desde já confesso que são vezes sem conta que isso acontece. Mas agora, como exemplo, entenda-se lá, ocorreu-me esta das “placas”.
Creio que todos associamos o termo “placa” a diversas situações do nosso quotidiano.
No meu caso, vêm-me logo à ideia as “placas” de separação dos pisos nos andares dos prédios, com aquelas toneladas de cimento a escorrer por mangueira provindas daqueles camiões cisternas. Aqui, temos desde logo, uma “placa”, ou laje, como dirão os técnicos na matéria.
Depois, também me assalta o pensamento as “placas toponímicas” que indicam os nomes das artérias das diversas localidades. Aqui, por exemplo, logo me vem uma crítica. Não percebo, ou melhor, percebo, a razão pela qual, na maior parte delas, quando colocam o nome na tal “placa”, não fazem constar ou indicar a razão que levaram a colocar o nome em determinada rua, avenida, praça ou praceta.
Sempre seria uma simbólica forma, mas eficaz, de espalhar a cultura pelas populações e, gratuitamente.
Não vou enumerar exemplos que me iriam encher, de certeza, sacos de 50 quilos, mas reparemos nas que existem e observemos se por baixo do nome diz quem foi aquela pessoa. E, reconheçamos, algumas delas nem fazemos a mínima ideia. E era bom que lá constasse.
Pois bem. Isto das “placas”, ainda não acabou. Temos, também as “placas dentárias”.
Vejam lá o que é que isto tem a ver com as lajes dos prédios ou os nomes das ruas? Tem. Também são “placas”. Felizmente, que essa de chamarmos “placa” à dentadura está a cair em desuso. Como tudo na vida, temos de evoluir. Efetivamente, hoje mais pomposamente, chamamos prótese dentária. Bem visto. Imagine-se chegarmos a uma clinica e quando nos perguntam:
- O que deseja? Respondemos em voz que todos ouvem (os portugueses têm a fama de falar alto)
- Partiu-se-me a “placa”.
Ora, não será melhor dizer:
- Venho substituir a prótese!? Claro que é mais elegante e dá outro estatuto.
Estava para aqui a lembrar-me, agora já fora no “exterior do dentista” de outro tipo de “placas” e ocorreu-me também aquilo a que chamamos as placas giratórias - frame do ferro circular, nome feminino do giro e placas de cobertura com trilhos que formam dois mais estradas transversais e serviram nas estações das estradas de ferro para fazer essa mudança através de carruagens puxadas a cavalo- (copiado da net)
E, bem mais perigosas - Deus nos acuda - ainda existem as “placas teutónicas”. Placa tectônica é uma porção da litosfera limitada por zonas de convergência, zonas de subducção e zonas conservativas. Segundo a teoria da tectônica de placas, as placas tectônicas são criadas nas zonas de divergência, ou "zonas de rifte", e são consumidas em zonas de subducção. É nas zonas de fronteira entre placas que se regista a grande maioria dos terremotos e erupções vulcânicas. São reconhecidas 55 placas tectônicas, 15 principais e 40 menores. (Copiado da net)
Como se vê, falta de “placas” não há. Já nem vou falar das de trânsito.
Bom, por aquilo que conheço, creio que somos dos países com mais “placas”. E, porquê?
Estávamo-nos a esquecer das placas políticas! Sim, sim, estou também a contar com essas.
Estou a imaginar o sorriso da surpresa. Verdade, cheguei à conclusão, com a vinda à memória da soma dos tais factos de somenos importância que fomos e, agora até se exagera, um povo adepto da cultura da “placa politica”.
Deixem-me contar um episódio a que quase assistia. Há uns largos anos, estava no Funchal em serviço. No fim do dia, o responsável da empresa veio entregar-me um convite.
Começava assim: Sua Excelência, o Excelentíssimo senhor Doutor.….. convida Vossa Excelência…
Tratava-se da inauguração de um supermercado. Agradeci, mas, claro, estava em serviço e não em férias. Aliás, também nada me dizia de interesse. Mas enganei-me. No dia seguinte à inauguração, que coincidiu com o meu regresso, peguei num jornal que ainda o guardo numa qualquer gaveta e foi hilariante a surpresa. Garanto que a notícia ocupava uma página interior do jornal, com chamada da primeira página, noticia essa que, além de descrever o evento, se fazia acompanhar de uma foto, talvez do tamanho de ¼ de página. E o que se via? A entrada do dito supermercado com 3 caixas. Reconheço que eram mais que as da mercearia perto da minha casa. E, claro, não podia faltar a tal “placa política” a assinalar o evento com o nome do senhor governador.
Ao acabar de escrever isto, estou a lembrar-me de uma inauguração, agora já no Continente, numa terra que não recordo o nome, onde foi inaugurado um pequeno parque para arrumar meia dúzia de bicicletas. Como sempre, não podia faltar a tal “placa politica” com o nome do senhor Presidente da Câmara que, em tão boa hora, tinha tido a maravilhosa ideia de também ali deixar ad perpetuam o seu nome ligado a tão grandioso feito.
Claro que nisto das “placas politicas” também existem exemplos de curiosas curiosidades (o pleonasmo é propositado)
Estou a lembrar-me, por exemplo, de um tribunal que começou a ser feito numa legislatura onde o ministro era um e acabou por ser inaugurado na legislatura onde o ministro já era outro.
Aliás, até aqui, nada de anormal no nosso país.
E, então, num gesto de assinalar, não sei se para evitar ciúmes, se por cortesia, lá ficou na dita “placa” o nome dos dois ministros.
E aqui, paro. Olha se a moda pega, com a demora que as obras no nosso país levam a realizar, qualquer dia as placas passam a constituir um autêntico memorial de diversos governos.
Existem, também, também aqueles casos, por exemplo, de ser instalado num hospital um determinado equipamento que, sem dúvida, tem por objectivo melhorar os cuidados de saúde prestados aos doentes e correspondendo aos mais avançados conhecimentos da tecnologia clínica.
Não está em causa, obviamente, o mérito da entrega do equipamento ao hospital, o seu custo considerável e a significativa melhoria no tratamento dos nossos doentes.
É certo que se trata de dinheiro público e os governantes só têm de o saber aplicar bem, no caso, investindo na saúde. Pena serem mais as notas negativas do que as positivas no que respeita ao despesismo a que se assiste.
Claro que não está em causa o nome do senhor, com quem até simpatizo que, com a sua presença quis, politicamente, assinalar o acto de tal entrega.
Mas, francamente, como dizia o humorista, havia necessidade de colocar a tal “placa politica” a dizer – Inaugurado pelo senhor Secretário….
É que, se a moda também aqui pega, qualquer dia, qualquer barracão que se construa ou conjunto de sanitários que se ofereça a uma misericórdia, lá temos um qualquer Secretário de Estado aconstar na dita “placa” com os dizeres - sanitas, bidés, lavatórios e polibans inauguradas pelo senhor de tal…
E, para não sermos antipáticos, arranjamos outra “placa” necessariamente mais pequena e afastada – como a do tribunal a dizer: Louças oferecidas pela fábrica tal… (esta publicidade sempre seria um estímulo e ajuda às nossas empresas).
Em súmula: Quero lá eu saber quem foi o Presidente, Ministro ou Presidente de Câmara que foi puxar a bandeira para que permanecesse para todo o sempre o seu nome numa obra ou equipamento custeado pelo erário público? Que interesse tem isso para a História de um país, a não ser satisfazer os egos de quem, em determinado momento, está, politicamente, no poder?
O que me vai consolando, é que também vou ter direito à minha “placa” …no cemitério.
Emanuel Góis













