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FatalidadesPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Quem se debruça sobre a História do princípio do século XX não deixa de se interrogar sobre as origens da I Guerra Mundial. Não faltavam pontos de confronto, rivalidades e ambições, mas as causas próximas (ou pretextos?) do confronto são desconcertantes.

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Fatalidades Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Estava-se no Verão, e famílias reais, governantes e demais figuras gradas estavam de férias. Quando surgiu a crise, os mecanismos dispararam, as alianças funcionaram, e caminhou-se para a guerra de forma a quase automática.
Quando os políticos tentaram inverter a situação, a resposta dos Estados-Maiores foi que tal não era possível: a mobilização era irreversível.

E assim, alegremente, se caminhou para uma mortandade sem precedentes, e para o início do declínio da Europa.
Talvez se tenha pensado que a guerra era pouco provável, dados os avisos sérios de quem atentava para a evolução tecnológica da arte de matar. Ou ainda pensado como Bismarck: só se para a guerra quando estiver ganha de antecedência.
O encadear dos acontecimentos foi considerado uma fatalidade.
A atual situação portuguesa tem algo de semelhante.

Como sabemos (por tantas vezes repetido) todos os partidos ganharam as últimas eleições. Mas, por detrás de tantas apregoadas vitórias, afiaram-se as espadas e contaram-se as espingardas. E os descontentes com as anunciadas e magras vitórias, sedentos de protagonismo, manobraram para desalojar os comandantes.

Aparentemente, a ocasião era favorável: a coligação informal do Governo (vulgo geringonça) parecia sólida, e, com a frente de batalha reduzida a uma drôle de guerre, estava na hora do acerto de contas. Mandam as regras que se devem evitar as guerras em duas frentes.

É sempre bom recordar as palavras de Winston Churchill, ao mostrar ao filho as bancadas do Parlamento britânico: deste lado estamos nós, conservadores, e daquele lado, os trabalhistas. E o filho: então, os inimigos estão daquele lado? Não, disse o velho político: daquele lado estão os adversários; os inimigos estão deste lado!
Seguindo um conceito semelhante, aberta a oportunidade, os inimigos digladiaram-se, nas formações descontentes com as magras vitórias.

Mas eis senão quando o impossível acontece: a geringonça desmoronou-se, como aquele governo que se sumiu por um alçapão, parafraseando a soberba, repentina e única intervenção inteligente do Conde de Abranhos nas Cortes.
Logicamente, seria hora de arrepiar caminho, reverter a guerra, e mudar os objetivos dos inimigos para os adversários.
Mas assim não aconteceu. Como há cerca de um século, as mobilizações eram irreversíveis. E as tropas marcharam para comícios e reportagens, declarações e entrevistas, argumentações e insinuações.

Em batalhões cerrados, como em 1914, alheios ao terreno em disputa, que, por acaso, é o eleitorado português.
Mas, como se diz na gíria militar, o terreno é ditador: ele é o principal condicionador do desfecho da batalha.
Por isso, não venham depois dizer que foi uma fatalidade.

Nuno Santa Clara

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