NÃO ME LEVEM A CARTEIRAPor Emanuel Góis
Barreiro

Por Jornal Rostos
Assinalo, desde já, que acho o programa - que já sigo há muito tempo – interessante, os assuntos bem escolhidos e os intervenientes simpáticos.
Obviamente que, nestas coisas de comentadores, não existem isentos, que eu conheça, pelo que os de que agora falo não escondem as suas preferências. E assim deve ser. São pessoas educadas, respeitam a opinião dos restantes membros e, vamos lá, fazendo justiça, andam actualizados, parece saberem do que falam e têm uma boa dialéctica na abordagem dos temas.
Sem exaltações, sem sobreposição de vozes, concluo dizendo que, sim, gosto.
Ora, em determinado momento dos temas escalados para a sessão, foi a vez de falarem sobre essa situação do vice-presidente da assembleia da república, agora muito badalado na nossa comunicação social
Confesso que tenho acompanhado, embora à distância, mas não é questão que me prenda demasiado a atenção.
Mais preocupante, para mim, é para um território com a área de 88.889 kms quadrados, 218 kms de largura e 561 kms de comprimento, para além de 230 deputados – e refiro-me só a estes – haver a necessidade de, além do Presidente e, muito bem, serem ainda precisos mais 4 (quatro) vice-presidentes.
Vem no Regimento, parece, os quatro maiores partidos votados nas eleições indicarem um eleito para o cargo.
Enfim, sempre é uma forma de contentar todos. Valha-nos que, cada vez mais, partidos políticos não faltam.
Todavia, não posso deixar de dizer que para mim, sempre entendi que o termo vice seria para substituir o Presidente, nas ausências e/ou impedimentos deste.
Mas, quatro? Só poderia perceber, em jeito de brincadeira, se fosse para se substituírem uns aos outros.
Mas, como não é esse o caso, vá lá um pouco de má-língua, tema
(a língua) que prometo abordar numa próxima oportunidade, parece-me mais acertado concluir que antes serve para se distribuírem mais uns euritos pela rapaziada, como acima referi.
E aqui, porque também não ando a par dessas coisas que para aí falam da carteira de cada um, fiquei a saber que, cada vice-presidente tem direito a um gabinete (presumo que, não sei o plafond, mas o recheio será de escolha de cada um para dar um ar mais personalizado e pessoal, quase que aposto) um motorista ou, uma, para não ferir susceptibilidades de discriminação de género, uma secretária ou, secretário (convém sempre ir fazendo esta diferenciação para evitar apelidos de sexista e xenófobo) viatura automóvel (presumo que será de gama alta) e, além de umas tantas outras benesses iguais às dos outros deputados um valor, naturalmente superior a estes. Se não estou em erro, para 2022 será de € 4.633,26 (só vencimento e despesas de representação).
Como diz o povo – “Quem não sabe ser caixeiro que feche a loja”.
Mas, vamos lá então directos ao motivo deste meu apontamento, embora seja e, não o nego, totalmente opositor a estas mordomias para quem deve ter a causa e o interesse público como objectivo principal, já que é isso que apregoam e prometem.
Com isto não quero dizer que não existam condições dignas e compatíveis com as funções que desempenham – não confundir com cargos – mas dentro de um patamar de razoabilidade em atenção ao país onde se inserem.
Exemplos, lindos, vêm de países onde a cultura política é, isso mesmo, o desempenho de funções no interesse da colectividade, sem que, com isso, se estabeleçam diferenciações e assimetrias bem significativas com os demais concidadãos.
E se são países ricos e desenvolvidos.
E eis-me chegado ao ponto final.
O nosso exemplo, serve de leit motiv para colocar em confronto com o que hoje fiquei a saber em conversa com um amigo de longa data.
Disse-me ele, espero não me enganar, que aguardava pela reforma – aos servidores civis do Estado chamam-lhe aposentação – e que, ao fim de 41 anos de serviço, ia receber menos € 55,00 que o valor que recebia em 2006?!?!?!
Estranho? Não, para mim não é estranho, tendo em atenção os anos que já decorreram com a delapidação, desperdício, desvios e má aplicação do erário público. Desse dinheiro de todos nós e dos outros europeus que lá vão enviando uns comboios de notas.
Convenhamos. Pagar uma pensão a um funcionário depois de 41 anos a servir o Estado, com menos 55,00 € que o valor que recebia há 16 anos atrás, é obra.
Somos, efectivamete, um país de futuro e vale a pena motivar os seus trabalhadores para a batalha da competitividade e pedir à nossa juventude para ficar por cá.
Para o meu amigo, bem, vá aprendendo a jogar à sueca e passe as manhãs e as tardes a ver televisão. Dizem que dão excelentes programas para os velhinhos. E tente aguentar-se em casa, porque é capaz de não ter dinheiro para pagar a um “Lar”.
No meu caso, que não fui funcionário do Estado, mas que ajudo e, bem, felizmente, para os vice-presidentes da assembleia da república e outros defensores políticos dos meus direitos, só tenho que aguardar que, nos já não muitos anos que me restam, que não me venham mais à carteira.
Já pago para tantos subsídios e tanto parasita que, se me levarem mais, passarei a inscrever-me, também, no Rendimento Social de Inserção.
Emanuel Góis













