Como lá foraPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Não se pense que isto é um apelo ao “orgulhosamente sós” ou de outras patranhas nacional-patrioteiras que por aí continuam a proliferar, na linha da Traulitânia, do Integralismo Lusitano e do Estado Novo, esse estádio supremo do chauvinismo bacoco.
Apenas a constatação da nossa existência, que vai fazer nove séculos (algo digno do Guiness europeu), da nossa idiossincrasia, da nossa cultura, da nossa vivência. Existo, logo existo.
A explosão das redes sociais veio potenciar essa tendência, aparecendo como novidade.
Nada mais falso.
A globalização e massificação da comunicação têm um duplo efeito: apela a sermos como os outros, e a distinguirmo-nos dos outros.
Também aqui nada de novo. É estar na moda, mas com um toque pessoal. A aparente contradição não passa das duas faces da mesma moeda.
Assim, seguir o grupo implica comportamentos de imitação, algo essencial à sobrevivência do rebanho, da manada, da alcateia ou do cardume. Que, no homo sapiens, pode e tem sido explorado, tanto para fins políticos, como para fins comerciais. Nestes últimos isso revela-se nas marcas (calças X, ténis Y, blusas Z), mas também na política. Vale a pena recordar o magistral Animal Farm, (entre nós O Triunfo dos Porcos), de George Orwell, onde, quando o debate aquecia, entravam em cena os carneiros, entoando em coro “quatro pernas bom, duas pernas mau”, impedindo o debate das ideias.
Mas Orwell não se ficou por aí. Noutra obra de referência, 1984, criou a figura do Big Brother, o Grande Irmão (não confundir com a Big Sister da TV), que tudo sabe e tudo controla. Outra faceta do autoritarismo, cujos seguidores, quais cogumelos saprófitas, teimam em querer fazer renascer.
Esta dupla ação, imposição de ideias e controlo do pensamento, são velhos como o Mundo. Apenas os meios são mais sofisticados.
Voltando à aparente contradição rebanho/indivíduo, à busca da imitação e à afirmação pessoal, vale a pena recordar um exemplo histórico.
Entre as sete maravilhas do Mundo Antigo figurava o templo de Ártemis, ou de Diana, em Atenas. Em 356 A.C. foi destruído por um incêndio ateado por um tal Heróstrato, antepassado dos modernos pirómanos, que pegou fogo ao travejamento do telhado, procurando fama a qualquer preço. Depois de executado, foi proibido em Atenas pronunciar o seu nome, como forma de contrariar os seus loucos intentos.
Infelizmente, as cidades vizinhas não colaboraram nesse boicote, e o exemplo da preservação da decência não foi seguido, até hoje.
Deste modo, nas sociedades modernas a tentação do acesso fácil à fama, iniciado há quase vinte e quatro séculos, continua com pompa e circunstância.
No recente caso do estudante “terrorista” combinam-se as duas vertentes. Fazer um atentado “como la fora” (no caso, nos EUA, com o triste registo de recorde de massacres em escolas); e entrar para a estória (não para a História) pelo caminho mais fácil das redes sociais e tabloides.
A jusante, a proliferação de análises comportamentais, morais, sociais, e outras que tais; e uma janela de oportunidade para a afirmação de diversos especialistas, interessados em explorar este filão.
E, no fundo, uma consolação coletiva: temos um caso “como lá fora”.
Nuno Santa Clara













