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Colunistas

Comédia não divinaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Nas andanças dos comunicados e notícias, algo me chamou a atenção. Num apontamento lateral de um noticiário ligado a um grupo americano de interesses económicos (talvez mais financeiros), nos primeiros dias invasão da Ucrânia, o presidente Zelensky, atual herói, era chamado algo como ”o comediante que virou presidente”, referindo-se à sua antiga profissão de comediante.

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Comédia não divina Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Curta memória? Ronald Reagan foi ator de cinema, embora de segunda ordem, foi Governador da Estado da Califórnia e foi Presidente dos Estados Unidos da América, durante dois mandatos. Deixou nas Forças Armadas americanas um legado suficiente importante para que fosse dado o seu nome a um porta-aviões de propulsão nuclear. Não está em causa a justeza das suas ideias: o que interessa é que saltou de comediante a político de primeira plana, provando que os comediantes não são meros saltimbancos.
Será assim tão anómalo? Voltemos atrás na História.

Justiniano, imperador de Bizâncio, desposou Teodora, que fora atriz numa época em que a distinção entre atriz e prostituta era, no mínimo, ténue. Mas Teodora afirmou-se como conselheira de seu real esposo. Na sequência de uma revolta, quando todos aconselhavam
Justiniano a fugir, Teodósia impôs-se com uma frase teatral, cujo texto exato se desconhece, mas teria sido algo como “da púrpura se faz uma fina mortalha”.
Algo semelhante ao atribuído a D. Luísa de Gusmão, a espanhola consorte de D. João IV: “mais vale ser rainha por um dia que duquesa toda a vida”.
Ambas jogavam as suas cabeças nessa aposta, e ambas estavam acima dos seus hesitantes maridos.

Recentissimamente, os Estado Unidos oferecem ao Presidente da Ucrânia a possibilidade de um asilo dourado, como têm oferecido a tantos outros serventuários da sua política externa.
Mas, desta vez, a resposta foi diferente: Zelensky, ataviado perante as câmaras como qualquer militar da linha da frente, respondeu que o seu lugar era entre os seus militares e o seu povo.
Bem poderia ter dito, parafraseando Teodora, que “o camuflado é uma bela mortalha”.

Escreveu William Shakespeare: “All the world’s a stage, and all the men and women merely players” (O mundo todo é um palco, e todos os homens e mulheres são meros atores).
Talvez esta comédia universal não seja divina, como a de Dante, mas há atores que se distinguem.
São os que conhecem a vida de palco, e melhor ainda o Palco da Vida.

Nuno Santa Clara

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