O passado e o presentePor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Tinha moral para o fazer: o escritor iconoclasta de Vers l´Armée de Métier, ou de Le fil de l´épée, no período entre as duas Guerras Mundiais, foi fortemente atacado no seu país pela ousadia, e viu a carreira comprometida.
No entanto esta e outras constatações semelhantes são partilhadas por muitos pensadores da arte militar; só que são normalmente de baixa patente, e nem sempre são profissionais.
O relacionamento entre a evolução do armamento, a sua aplicação no terreno e sobretudo as alterações da política de Defesa que essa evolução determina é, ou deveria ser, um tema fascinante para os historiadores. Desde o tempo em que os homens com armas de cobre derrotaram os armados de pedras, e os de bronze os de cobre, e os de ferro os de bronze, até ao mais sofisticado armamento atual, o mesmo princípio tem sempre aplicação: o último a armar-se é o que se arma melhor; e o que melhor aplica a tecnologia existente ganha a guerra.
As lições não aprendidas têm um preço; parafraseando a canção do António Variações, se a cabeça não tem juízo, o povo é que paga. Por exemplo, a Guerra Civil Americana (1861-1865), travada por soldados e oficiais feitos no calor da batalha, não foi condicionada por estudos académicos e ideias feitas; o campo ficou livre para o improviso e para a inovação, e assim se desenvolveram as espingardas e peças de retrocarga, as metralhadoras, as trincheiras e o arame farpado. Simplesmente, aquela “guerra de índios” não interessou aos europeus – que pagaram mais tarde a aprendizagem com vinte milhões de mortos na I Guerra Mundial.
Os analistas militares são um pouco como os economistas: explicam bem o que correu mal, mas não têm receitas infalíveis para as coisas correrem bem. Esta fatalidade histórica agrava-se quando os chefes têm a tendência para se rodear de pessoas que lhes digam o que gostariam de ouvir. O que, para os portugueses, representa uma regressão: nas nossas crónicas, são muitas as referências a discussões acaloradas na véspera das batalhas, em que os diversos comandantes de corpo se exprimiam livremente perante o rei, ou comandante-chefe.
Em tempos recentes, há exemplos de relatórios de informações que foram mandados refazer, de modo a justificar uma decisão já tomada; as I e II Guerras do Golfo são bons exemplos disso.
De modo que as decisões estão comprometidas de véspera, inquinadas por otimismo galopante, pela sobrevalorização dos fatores favoráveis e pela subestimação dos fatores desfavoráveis. Um cocktail venenoso, e facto estranho, quanto a repetição da receita deveria fazer pensar quem tem de tomar decisões.
A história da atual Guerra da Ucrânia levará decerto muitos anos a escrever, como akli+as qualquer guerra. Basta lembrar que a nossa última guerra ainda não tem sequer nome oficial; uns chamam-lhe Guerra Colonial, outros do Ultramar, outros ainda de África; na sua intervenção no dia 9 de Abril na Batalha, o atual Presidente da República, com a sua habitual finura, referiu-se à Guerra de Angola, Moçambique e Guiné.
Isto não impede que haja quem queira fazer já História, quando o que se pode fazer é contar estórias. Mas a corrida à crónica está aberta, e feita à vezes por quem não distingue uma munição tracejante de uma munição incendiária, um carro de combate de um blindado de transporte, ou um foguete de um míssil.
Há um velho ditado que diz que nenhum plano resiste à primeira troca de tiros. Por isso se separa o planeamento da conduta, e é na conduta que se revelam os grandes chefes.
No que se poderia chamar de primeiras impressões sobre este conflito, dir-se-ia que os russos foram vítimas (?) de terem subestimado duas coisas: a vontade de resistência dos ucranianos e a eficácia das modernas armas anticarro e antiaéreas. Se no primeiro caso se podem invocar fatores subjetivos, já no segundo não se podem escudar com desconhecimento. Basta ver as carcaças de carros de combate T-90 tidos por “indestrutíveis”, a par de dezenas de outros blindados, para constatar que houve estimativas grosseiras. O resultado: uma coluna blindada entra numa povoação; atacada, reage pela destruição sistemática dos edifícios; desses edifícios, ou do que resta deles, sai o fogo mortífero sobre a coluna; ao fim, fica um rasto de viaturas calcinadas, com os tripulantes queimados no interior, e uma povoação destruída. E mortos espalhados por todo o lado. Para não falar de drones armados, satélites de reconhecimento e outras maravilhas da tecnologia.
Nada mais natural para os russos que uma reavaliação pelos da estratégia e tática, e da redefinição dos objetivos e do empenhamento de tropas – e, naturalmente, a transferência do esforço para o sul e leste, cortando a acesso ao mar, com a ocupação de Mariupol e Odessa, e a consolidação da região do Donbass. Em caso de sucesso, talvez uma subida pela margem leste do Dniepr, com a tomada de Dnipro e fazendo a ligação com as forças de Karkiv ou mesmo Kiev.
A última vez que os portugueses tiveram o seu solo invadido por forças estrangeiras foi em 1810, com a III Invasão Francesa. Ficou a recordação das violências, saques, violações, massacres da população, e a consequente retaliação sobre os invasores, feita por tropas de linha, milícias e ordenanças, além do povo exasperado, cumprindo diretivas das autoridades e seguindo as motivações pregadas nos púlpitos e adros, fulminando ateus, pedreiros livre e libertinos. Basta dizer que soldado francês que saísse da coluna, por qualquer razão, já não voltava.
Como sempre se disse nestes casos, eram os desmandos da soldadesca – como se os comandos não tivessem também culpa no cartório, por atos ou omissões, ou mesmo por incentivos.
As cenas de Bucha trazem outras à memória. Em 1940, após a quarta divisão da Polónia, desta vez entre a Alemanha nazi e a União Soviética, Estaline e a sua clique decidiram eliminar a nata da sociedade polaca, massacrando cerca de 22.000 quadros superiores, civis e militares, na sua maioria na floresta de Katin. Em 1943 os alemães localizaram as valas comuns e aproveitaram-nas para a sua propaganda (com lágrimas de crocodilo), acusando a União Soviética do massacre. Esta respondeu acusando os nazis de autores da façanha . A questão só veio a ser esclarecida em 1990, no tempo de Gorbachev, com o reconhecimento da responsabilidade da URSS.
Ou seja, cinquenta anos depois. Esperemos a que Bucha e outros casos não levem meio século a serem resolvidos.
Nuno Santa Clara













