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Colunistas

Simetrias e assimetriasPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Desde sempre houve uma tendência para classificar as guerras por categorias, e o planeamento e condução da guerra como no domínio da ciência, quando não da arte. Mas a racionalização da violência nunca será fácil, já que a violência é o oposto do entendimento, e o seu emprego a falência do diálogo.

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Simetrias e assimetrias Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Sendo a guerra uma ascensão aos extremos, como escreveu Clausewitz, naturalmente são deixados para trás as considerações de um comportamento normal, e o raciocínio deixa de ser inteiramente lógico.

Os ataques a cidades são tão velhos como as próprias cidades, mas normalmente prefere-se capturar uma cidade intacta a destrui-la; ruínas não servem para nada, a menos que se trate de uma guerra de extinção.

A evolução tecnológica levou a que fosse possível a destruição das cidades à distância, primeiro com artilharia pesada, depois com a aviação; com esta última, o primeiro e mais famoso caso foi a destruição da pacata cidade de Guernica, no País Basco, em 1937, pelos aviões ao serviço de Franco.

Poderia ter ficado como um exemplo de crueldade inútil, sem continuação, mas não foi isso que aconteceu. Durante a II Guerra Mundial, o bombardeamento de alvos civis passou a ser a regra, e não a exceção, e os números falam por si: mais de metade dos mortos deram-se na população civil

O Marechal da RAF sir Arthur Harris, do Comando dos Bombardeiros, era conhecido pelos seus subordinados por Bomber Harris ou Butcher Harris, sendo que a segunda alcunha (Harris o Carniceiro) tinha tanto a ver com as baixas do inimigo como com as das próprias forças, cujas táticas levaram a uma pesadíssima taxa de baixas.

Recordemos uma das suas diretivas: o objetivo da Ofensiva Combinada de Bombardeamento deve ser, sem ambiguidade… ter como objetivos aceites e intencionais da nossa política de bombardeamentos a destruição das cidades alemãs, matar os trabalhadores alemães, e o desmantelamento da vida civilizada por toda a Alemanha… a destruição das casas, equipamento coletivo, transportes e das vidas, e a criação de um problema de refugiados em escala sem precedentes, a quebra da moral tanto em casa como nas frentes de batalha através do medo.

A II Guerra Mundial constitui um exemplo clássico de uma guerra simétrica, em quase todas as partes dispunham de tecnologias as e organizações semelhantes, ao contrário das guerras de ocupação de colónias pelos exércitos europeus no século XIX e mesmo XX, que eram guerras assimétricas, dadas as diferenças abissais entre as forças em confronto. Em guerras simétricas, a vantagem vai mais para o volume de meios disponíveis e para o melhor emprego desses meios.
Mesmo na I Guerra do Iraque, considerado este como sendo o quarto maior exército do Mundo, a diferença de tecnologia era tal que acabou por ser uma guerra assimétrica.

Da consciência da própria fraqueza nasceu uma teoria muito em voga nos tempos atuais: a dissuasão do fraco ao forte; ou seja, o forte pode ganhar, mas a um preço incomportável. Foi essa a opção da França de De Gaulle, que, com dúzia e meia de mísseis, pretendeu conter a União Soviética. Ou o recurso à guerra de guerrilhas, com grande sucesso nas Invasões Francesas, e por todo o lado no século XX.
Ao olhar para a atual Guerra da Ucrânia (penso que já se pode chamar assim) a primeira impressão é de que se trata de uma guerra assimétrica, dada a desproporção de meios.

Mas do ponto de vista da tecnologia é uma guerra simétrica, sobretudo após a injeção maciça de armamento e de meios de informação ocidentais. À determinação ucraniana juntaram-se armas capazes de dar a uma eventual vitória um preço insustentável. E essas modernas armas de precisão facilitam a defensiva, tal como as metralhadoras na I Guerra Mundial, deitando abaixo a teoria do ataque a l ´outrance.
A dialética potência versus precisão tem milhares de anos. Podemos dizer que o caso mais antigo bem documentado foi o do humilde pastor David, que derrubou o gigante Golias com um simples seixo lançado por uma funda. Um tiro de precisão que decidiu o curso da batalha e mudou o curso da História.

O caso do cruzador Moskva tem algo de semelhante. Este cruzador, lançado em 1979, tinha cerca de 12.500 toneladas, 185 metros de comprimento e 24 de boca, e tinha um armamento considerável: 16 mísseis de cruzeiro P-500 Bazalt (550 km de alcance, 1.000 kg de ogiva, velocidade mach 3+), 24 mísseis antiaéreos SA-4-N Gecko (alcance 9 km), 64 mísseis antiaéreos S-300 (alcance até 400 km), um reparo com duas peças de 130mm (alcance terrestre 27 km) e seis sistemas AK-630 com seis tubos de 30mm cada (alcance 4 km) de defesa aérea e antimíssil próxima.

Estes dados, talvez fastidiosos, são apenas para avaliar bem o que estava em causa.
Não era, como se disse, o melhor cruzador da marinha russa: essa honra vai para o Kirov, com o dobro da dimensão, e mais recente. Mas o impacto da perda deste vaso de guerra não é apenas psicológico: além do tremendo prejuízo, fica fora de causa o lançamento de uma operação anfíbia, por exemplo na região de Odessa, como o Moskva tinha feito na Geórgia (e onde tinha também sido atingido).

Para além disso, a última vez que os russos tinham perdido navios importantes foi na batalha de Tsushima, em 1905, em que os japoneses afundaram seis couraçados, seis cruzadores, dezassete navios menores e ainda catorze navios capturados, contra apenas três torpedeiros afundados. A derrota seguiu-se ao primeiro grande abalo do regime czarista, com a revolta de 1905, cujo episódio mais conhecido foi o do couraçado Potemkin, que, depois de tomado pela tripulação, se dirigiu para apoiar os revoltosos… em Odessa!

As armas usadas pelos ucranianos teriam sido dois mísseis antinavio Neptune, criados na Ucrânia em 2021, disparados de terra. O problema está em que nenhum dos sistemas do Moskva foi capaz de deter os mísseis atacantes, o que deixa um amargo de boca ainda maior nos russos.

Falta de memória: em 21 de Outubro de 1967, o contratorpedeiro Eilat (ex-Zealous da Royal Navy, veterano da II Guerra Mundial), de 1.700 toneladas, foi afundado no Mediterrâneo por mísseis Styx lançados de três lanchas egípcias da classe Komar, de 60 toneladas, de origem soviética.
Simetria ou assimetria? Sem dúvida que reina a simetria no aspeto tecnológico, e que os dois seixos supersónicos lançados pelos Davides ucranianos abriram um forte rombo na autoconfiança russa.

Nuno Santa Clara

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