A arte de não ser importantePor Jorge Fagundes
Barreiro
Chegados à aldeia arrumaram o carro junto a outros já estacionados no largo fronteiro à taberna, que estava encerrada.

Por Jornal Rostos
E por alguns desses eventuais clientes souberam que o Sr. Benedito, dono da velha tasca, tinha falecido.
Benedito era um homem na casa dos oitenta que tinha herdado de seus pais a taberna e que a fizera famosa, quer pelos petiscos, mas em especial pelo prato especial da chanfana, receita original de sua Mãe.
Por mera curiosidade dirigiram-se à Igreja onde o corpo de Benedito era velado praticamente por todos os residentes locais.
E pelas conversas habituais nestas ocasiões ficaram a saber que o falecido tinha sido uma figura sempre presente nas atividades locais, designadamente:
1 – eleito para a Junta de Freguesia nas primeiras eleições autárquicas depois do 25 de Abril de 1974;
2 – mais de quarenta anos como membro dos corpos gerentes das tês coletividades locais;
3 – várias vezes como elemento das Comissões de Festas em honra de São Nunca;
4 – autor de várias carta abertas dirigidas à Câmara Municipal em defesa dos interesses da freguesia;
5 – através da Junta de Freguesia criação de um corpo de funcionários para proceder à limpeza diária das ruas e largos (excepto o passeio em frente da taberna por ele varrido diariamente antes da abertura do estabelecimento).
Abílio e Isabel olharam para as bandeiras da Junta de Freguesia e das coletividades e nas inúmeras coroas de flores, mas estranharam nada existir por parte da Câmara Municipal.
Por isso perguntaram a um dos presentes: “e a Câmara alguma vez reconheceu as atividades do Sr. Benedito?”
“Ao longo da sua Vida nunca pareceram dar por isso, talvez o considerassem uma pessoa sem importância. Mas, em boa verdade, o Sr. Benedito foi uma figura impar na arte de não ser importante!”
Jorge Fagundes
Nota do autor: sendo um texto de ficção qualquer semelhança com a realidade não passa de mera coincidência.













