Visão periféricaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Assim, temos um misto de visão estereoscópica, orientada para o cálculo das distâncias, ou seja, para a caça, e de visão periférica, típica dos animais caçados, de presas, virada para a defesa em todas as direções.
Talvez por isso, o nosso raciocínio é um misto dessas duas tendências, ataque e defesa, e talvez daí o sucesso da nossa espécie.
Isso talvez explique o porquê de, nos tempos modernos, nenhum país ter um Ministério do Ataque: é sempre um Ministério da Defesa. Nem os países mais explicitamente agressivos ousaram dar o passo fatal de assumir a sua sanha violenta e conquistadora, gravado na terminologia institucional.
Assim, atacando, apenas se defendem. Mesmo no linguajar popular se diz que a melhor defesa é o ataque. Para os distraídos – e continua a haver muitos – o que se passa na Ucrânia é uma boa demonstração desse princípio.
O que me chamou agora a atenção passa-se noutro hemisfério. Na Índia, recentrada na tradição hinduísta mais enraizada, foi anunciada uma reforma profunda nas Forças Armadas. As praças deixarão de ter um tempo indeterminado de serviço, para estarem condicionadas a contratos de quatro anos, excecionalmente prorrogáveis. Tanto bastou para que eclodissem revoltas por todo o país.
Aparentemente, sem razão. É difícil conceber um atirador de Infantaria cinquentenário, um sapador da mesma idade, ou mesmo um grisalho servente de artilharia de campanha.
Mas o problema parece ser outro. Na Índia, servir no Exército é um bom modo de vida. Come-se todos os dias, existe um salário, tem-se prestígio (ou pelo menos é-se temido), e os riscos de ameaça externa são diminutos. Alterar este modus vivendi é, portanto, uma provocação.
A menos que os dados do problema se alterem, e a ameaça externa deixe de ser uma utopia. Então, atiradores, sapadores e serventes têm de ser jovens e aguerridos, e não apenas veteranos garantes da paz social interna.
É aqui que entra a visão periférica. Ou seja, deixar de estar focado em frente, numa prontidão teórica sobre uma ameaça remota, talvez fruto de teorias importadas, passar a olhar à volta, e ver o que está efetivamente em jogo.
Cada vez mais temos que admitir que o Mundo não será o mesmo depois da Guerra da Ucrânia, qualquer que seja o seu desfecho. A famigerada “ação militar especial” veio alterar o equilíbrio estratégico mundial, e a Índia simplesmente tirou daí as conclusões lógicas.
Para complicar mais as coisas, a Colômbia vira à esquerda, o Brasil pode seguir o mesmo caminho, o Chile já lá está, e o Equador está em turbulência. Para não falar em Cuba, na Venezuela ou na Nicarágua. Ou seja, a porta dos fundos dos EUA está em mudanças, e não parece que uma ação a la Pinochet seja viável.
O empenhamento americano no alargamento da NATO para Leste pode assim sofrer condicionamentos, para além do preço, uma vez que as sanções económicas, tal como as minas, são armas cegas e de dois gumes.
É a visão periférica que nos faz ver os fogos-fátuos nos cemitérios.
Mas será que neste caso são só fantasmas?
Nuno Santa Clara













