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Psicologia & Notas ReflexivasSAÚDE MENTAL EM CRIANÇAS E JOVENS EM RISCO NUMA CASA DE ACOLHIMENTO
(Notas reflexivas)
Por Rui Grilo
Barreiro

A SAÚDE MENTAL em crianças e jovens numa casa de acolhimento, está intimamente ligada à relação e ao estabelecimento de relações de afeto, bem como à capacidade que deve ser estimulada às crianças ao nível da reflexão sobre as emoções e afetos, dando significados e transformando a sua regulação e gestão emocional.

7 min de leitura
Psicologia & Notas Reflexivas SAÚDE MENTAL EM CRIANÇAS E JOVENS EM RISCO NUMA CASA DE ACOLHIMENTO (Notas reflexivas) Por Rui Grilo Barreiro

Por Jornal Rostos

A FAMILÍA É O CONTEXTO PREVILIGIADO PARA O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA, APRESENTANDO UM PAPEL VITAL NO SEU DESENVOLVIMENTO HOLISTICO E AJUSTAMENTO PSICOSSOCIAL.
(Krishnaswami & Kuttappan, 2019)

CONTUDO, É TAMBÉM NO SEIO FAMILIAR ONDE OCORREM A MAIORIA DOS CASOS DE ABUSO E NEGLIGÊNCIA PERPETRADOS ÀS CRIANÇAS, SENDO QUE QUANDO TAL ACONTECE O SISTEMA COLOCA EM AÇÃO SOLUÇÕES CAPAZES DE PROTEGER A CRIANÇA.
(Herrera, 2018; Pereda et al., 2014)

O que é uma casa de acolhimento residencial para crianças e jovens em risco?

O Acolhimento Residencial (AR) consiste numa medida extrafamiliar de promoção e proteção que visa colocar a criança aos cuidados de uma entidade que disponha de instalações e equipamento permanente e de uma equipa que lhe garanta os cuidados adequados às suas necessidades e lhe proporcione condições que permitam a sua educação, bem-estar e desenvolvimento integral (art.º49 LCPCJ 142/2015).

Ora, neste contexto partimos de um pressuposto inicial associado à SINALIZAÇÃO das crianças e jovens, determinado pela Situação de
Risco/Perigo. Esta mesma sinalização é feita pelas mais diversas formas, quer a nível institucional e/ou individual, em contexto escolar, entre outras...
Temos como exemplos, Maus tratos físicos, Maltrato psicológico ou emocional, Abandono, Negligencia, Abuso sexual, Exploração do trabalho infantil, Prática de crime, Orfandade, Comportamentos desviantes e Ausência de suporte.

Após a avaliação e a comprovar a situação de risco, é potenciado o devido ENCAMINHAMENTO, através das Comissões de Proteção de crianças e jovens e/ou Tribunal, dando origem a Processos de Promoção e Proteção.
Nesta fase, existe aqui um Técnico Gestor do Processo de Promoção e Proteção envolvido, naquilo que é a aplicação da Medida de Acolhimento Residencial.

Já no âmbito do ACOLHIMENTO, é desenvolvido um Plano de Intervenção Individual tendo em consideração os vários interlocutores da vida da criança, como também o desenvolvimento de um Projeto de Vida, que poderá passar por um processo de autonomia de vida, reintegração familiar, adoção, apadrinhamento civil, confiança à pessoa idónea ou acolhimento permanente.

SOMOS RELAÇÃO PORQUE ESTAMOS EM RELAÇÃO...

PORQUE... SEM RELAÇÃO NÃO EXISTIMOS E EM RELAÇÃO TRANSFORMAMOS QUEM SOMOS...

A SAÚDE MENTAL em crianças e jovens numa casa de acolhimento, está intimamente ligada à relação e ao estabelecimento de relações de afeto, bem como à capacidade que deve ser estimulada às crianças ao nível da reflexão sobre as emoções e afetos, dando significados e transformando a sua regulação e gestão emocional.

Porém, destaco de seguida a maior prevalência das dificuldades sentidas pelas crianças e jovens em risco, enquadradas em acolhimento residencial:

- Fragilidades ao nível da regulação e gestão emocional e de estabelecimento de vínculos relacionais
seguros; Sintomatologia depressiva; Problemas comportamentais severos e de oposição.

- Naquilo que diz respeito ao acompanhamento pedopsiquiatrico, existem diagnósticos associados à
Hiperatividade com Défice de Atenção e Perturbação de Ansiedade – que são
diagnósticos normativos, não sendo exclusivos nem estando diretamente associados ao facto dos
jovens pertencerem ao Acolhimento Residencial.

- As manifestações sintomáticas diferem consoante a idade; nível de desenvolvimento; personalidade; vinculação entre a criança e os pais; experiências prévias;
perceção da causa da separação; ambiente
familiar; condições da casa de AR; duração do acolhimento e cuidados diferenciados em AR (Zurita
& del Valle, 2005).

- No acolhimento Residencial, não é tido o foco em diagnósticos clínicos, uma vez que o acolhimento não é um contexto formalmente clínico

FATORES DE RISCO PARA A SAÚDE MENTAL EM CRIANÇAS ACOLHIDAS
(In actas do 3º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses)

1) desorganização e disfunção familiar, traumas, separações, exposição fetal a substâncias
ilícitas e vulnerabilidades genéticas ;
2) características das famílias das crianças acolhidas, as carências psicológicas e
educativas potenciadas pelos acontecimentos de vida negativos;
3) As situações de perda ou de separação, bem como situações de maus-tratos ou
negligência parental;
4) A experiência das crianças em casas de AR pode potenciar o desenvolvimento de
problemas no âmbito da vinculação e um risco aumentado para diversos problemas sociais e comportamentais
5) o efeito da interrupção de cuidados e da alternância de figuras características do AR, que pode dificultar o desenvolvimento de padrões de vinculação inseguros;
6) quanto pior for a perceção das crianças e jovens relativamente à sua relação com os companheiros e com os cuidadores, maior é o nível de sintomatologia depressiva;
7) Um acolhimento superior a 6 meses potencia também a presença de sintomas depressivos;
8) quando o acolhimento é feito em casas deslocalizadas do seu distrito de origem, o
afastamento pode potenciar problemas desenvolvimentais;
9) A mudança de casa de AR que é particularmente comum no caso das crianças que apresentam problemas psiquiátricos, tendem a impedir o progresso terapêutico

FATORES DE PROTEÇÃO PARA A SAÚDE MENTAL EM CRIANÇAS ACOLHIDAS
(In actas do 3º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses)

Princípios orientadores que propiciam a melhoria na forma como as crianças e
jovens são acolhidos:
1) duração temporal do acolhimento (deverá ser transitório e durante um curto período
de tempo);
2) definição do projeto de vida com celeridade;
3) participação ativa da criança e do jovem na definição do seu projeto de vida;
4) promoção da continuidade e previsibilidade de cuidados à criança ou ao jovem
(assegurando a continuidade das relações de qualidade estabelecidas) (Gomes, 2010)

Desta forma, a Intervenção em Acolhimento Residencial, terá como ator principal a criança e/ou jovem, sendo que sería preponderante ter uma equipa multidisciplinar constituída por um assistente social, psicólogo e agentes educativos, por forma a desenvolver ações centradas no trabalho com as emoções e sentimentos....

Em suma, centrados na RELAÇÃO.

Assim, aspetos como a transmissão de
valores, autoconceito, auto-estima, alimentação, higiene, motivação escolar, relações interpessoais positivas, projeção,
Re significar as experiências vividas, organização do espaço, entre outras... devem ser aspetos a ser trabalhados pela equipa multidisciplinar.

PORQUE SILENCIAR A VOZ NÃO APAGA O ECO. (O psicólogo deverá promover um espaço que permita a reflexão e o trabalho das emoções e sentimentos...)

Desta feita, a intervenção do psicólogo deve ter em consideração os seguintes aspetos:

- Realizar a Gestão do Processo Interno das crianças/jovens acolhidos;
- Articulação com entidades encaminhadoras dos Processos (Técnicos da EMAT, Gestores de Processos da CPCJ);
- Elaboração de Relatórios de Acompanhamento do período do acolhimento (Relatórios psicossociais);
- Dinamização de reuniões de jovens (onde são abordadas temáticas do quotidiano e
funcionamento da Residência e realizadas dinâmicas de treino de competências
sociais e regulação emocional) - Grupos terapêuticos
- Participação nas reuniões de Equipa Alargada (Técnica + Equipa Educativa) e Equipa Alargada com jovens;
- Apoio à Equipa Educativa, na gestão de situações e estratégias alternativas na função de cuidador de crianças e jovens em risco (abordagem sensível ao trauma e de acolhimento terapêutico);
- Articulação com as famílias e pessoas significativas das crianças/jovens;
- Intervenção com as famílias em contexto de visita familiar;
- Gestão de conflitos entre os jovens;
- Atendimentos individuais (Aconselhamento Psicológico) com as crianças e jovens
-Abordagem psicológica sensível ao trauma
- Abordagem centrada no Acolhimento Terapêutico e resignificação de relações/emoções.

SEM AMOR NÃO EXISTE RELAÇÃO, PORQUE O SER HUMANO DEPENDE DO AFETO PARA NÃO SENTIR A SOLIDÃO.
Um bem haja

Rui Grilo

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