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Colunistas

Da comodidade do raciocínioPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Issei Sagawa (1949 – 2022).
Este nome não diz nada a 99,9999% da Humanidade. No entanto, foi uma figura célebre – tristemente célebre.

Este Japonês estava em Paris fazendo uma pós-graduação e convidou uma colega para jantar. Matou-a com uma carabina, violou o cadáver e depois esquartejou-o e comeu-o. Pedaços da vítima foram encontrados no frigorífico, cuidadosamente embrulhados. Sagawa confessou o crime e descreveu o sabor da carne como semelhante ao do atum.

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Da comodidade do raciocínio Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Seria um fait-divers se não fosse a sequência mediática do caso.

Os tablóides lançaram-se ao japonês como gato a bofe, e por uma boa razão: era um estrangeiro, do outro lado do Mundo, logo suspeito de todas as animalidades, perversões, primitivismos. O canibalismo estaria naturalmente nessa onda.
A confusão lançada no público obrigou autoridades várias a intervir, esclarecendo que os japoneses não eram, em regra, canibais; eram até altamente evoluídos em muitos campos, inclusive na culinária (como sabem os apreciadores de sushi, por exemplo).

O problema está em que foi necessário esclarecer europeus, tidos por cultos, sobre o grau de civilização dos japoneses – aos mesmos europeus habituados a comprar automóveis ou electrodomésticos feitos no país do Sol Nascente.
Esta tendência para atribuir ao “outro” todos os malefícios e distorções de comportamento não é, como se vê, especificidade nossa. Para os chineses, os europeus eram os “diabos estrangeiros”, porque chocavam com a cultura local. E, se um estudante francês em Tóquio tivesse matado e comido uma namorada japonesa, talvez tivesse desencadeado um fenómeno semelhante. Trocando o atum rabilho por tournedos.
A par da ignorância, está a generalização. Ou seja, não era o caso de um desmiolado japonês; eram os japoneses feitos antropófagos.

Cerca de um milhão de portugueses emigrou, nos anos sessenta do século passado, principalmente para França. Terre d´accueil, ao que se diz, mas para os emigrantes o acolhimento não era tão fraterno. Perante os recém-chegados, e por comodidade, criou-se estereótipo do português: o marido era maçon e a mulher gardienne, como foi soberbamente representado no filme La Cage Dorée, do realizador Ruben Alves.

Classificar assim as pessoas é simples e cómodo.

Veio-me à memória o livro A rua do gato que pesca, da escritora húngara Yolanda (Jolán) Földes, em que relatava as condições de vida, por vezes difíceis, dos emigrantes húngaros em Paris. Tudo parecia correr bem, até que rebentou o caso dos falsários húngaros que fizeram notas falsas em quantidade e qualidade tal que abalaram os mercados. Os pobres emigrantes foram despedidos porque “as nossas clientes não aceitariam que gente daquela trabalhasse para nós”.

Curioso é que esses e outros falsários da Europa Central, então dominada pelos nazis, foram arrebanhados e obrigados a trabalhar na Operação Andreas, que consistia no fabrico de libras falsas, com o duplo intuito de enfraquecer a economia inglesa e pagar as operações secretas no exterior, nomeadamente aos espiões, como o famoso Cícero. A operação decorreu sob o controlo do Sicherheitsdienst (SD), o serviço secreto alemão.

O pensamento cómodo e simples atrás referido é particularmente eficaz nos regimes não democráticos. Ao debate e à pesquisa, prefere-se o slogan e a palavra de ordem. E nada melhor que um chefe carismático, como no modelo “Um Povo, uma Ideia, um Chefe.
E o Chefe tem sempre razão. Tanto faz no Führerprinzip nacional-socialista, como no “pensamento” do Secretário-Geral do Partido.
A crescente moda do populismo representa muito desse pensamento cómodo e simples. E se o Chefe aponta um grupo alvo (muitas vezes clonagem de um indivíduo), está passada a mensagem.

Niccolo Machiavelli escreveu que “embora noutros casos é odioso usar a fraude, nas operações militares é louvável e glorioso”.

O princípio não se aplica apenas nas operações militares; na guerra psicológica também. Na sua obra de referência Armmament & History, J.F.C. Fuller cita, de G. S. Vierek, a seguinte passagem: “sem ódio não pode existir propaganda. Dêem-me algo para odiar e garanto organizar uma poderosa campanha de propaganda, em qualquer lugar, em vinte e quatro horas ”. No mesmo capítulo, Fuller diz que “o Homem é aquilo que pensa, e numa autocracia o que ele pensa é o que o seu governo decide que deve pensar”.
Se o caso Issei Sagawa tivesse ocorrido hoje, não faltaria quem invocasse o canibalismo recorrente dos japoneses.
Na guerra pelas mentes, é bom que o raciocínio não esteja condicionado pela comodidade. Sobretudo numa época em que pode se conseguir tanto esclarecimento à distância de um click.

Nuno Santa Clara

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