Saltar para o conteúdo
Colunistas

A passo e passo...Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Há trechos, frases, versos que nos ficam na memória, e que, de repente nos voltam à mente, sem lógica visível.
Desta vez foram dois versos do soneto Na mão de Deus, de Antero de Quental:
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

3 min de leitura
A passo e passo... Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Penso que foi a percepção de uma descida fatal a algo assustadora que despertou esta imagem criada pelo Poeta, da lenta descida, até que,

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.

A Guerra da Ucrânia (chamemos o bois pelos nomes) tem algo semelhante a este descer a passo e passo. De Operação Militar Especial, simples passeio militar para reconduzir alguns transviados ao rebanho, a um conflito aberto e cada vez menos limitado, vem sendo um deslizar constante, um evoluir a conta-gotas, uma escalada verbal acompanhada do fluir de meios e acções cada vez mais perigosas.
E o curioso é que a receita é sempre a mesma: com mais uns carros de combate, com mais uns aviões de caça, com mais artilharia e munições, está tudo resolvido.
Também curioso é ver como a evolução do armamento levou a um impasse semelhante ao da Guerra de 1914-1918, com recurso a trincheiras e campos de minas.
E ainda mais curioso é ver ao analistas voltar aos clássicos, dos quais o mais citado é Carl Von Clausewitz, autor famoso tratado “Da Guerra” (em alemão Vom Kriege), publicado postumamente em 1832. A citação mais curta e recorrente é “a guerra é a continuação da política por outros meios”.
Como corolário, a resolução da guerra é política, e não militar.

O último degrau conhecido da escada estreita é o anúncio do fornecimento de munições de fragmentação (bomblets) pelos Estado Unidos à Ucrânia. Aparentemente, nada do outro mundo. Se não, vejamos:

• Os EUA, e outras fontes, já disseram que estas armas tinham já sido empregues pelas duas partes do conflito;
• Biden disse mesmo que o problema era só de falta de munições (destas e de artilharia pesada);
• E mais disse que estas bomblets são mais fiáveis que as russas (1,5% de falhas contra 2,5%); ou seja, teríamos um modesto decréscimo de 1% de munições não detonadas deixadas no terreno, para as gerações futuras.

Por outro lado, embora mais de cem países tenham renunciado ao emprego destas munições, os EUA, a Rússia e a Ucrânia não assinaram a convenção, pelo que o seu uso entre eles é legal (se é legítimo, é outra discussão).

Cereja em cima do bolo, sendo estas munições rejeitadas pela maioria dos países, torna-se difícil ou mesmo impossível a sua exportação. Resta desmantelá-las, o que é caro e até perigoso, ou gastá-las numa guerra, o que resolve o problema.
Não foram elas concebidas para explodir? Ainda que, ao que parece, nem todas...

Nuno Santa Clara

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção