TiriricaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Numa escala diferente, os líderes populistas apostam no inconformismo. Mas é normalmente um inconformismo passageiro, porque quando chegam ao Poder enredam-se numa teia de compromissos e interesses que depressa os tornam iguais aos antes vilipendiados. Caso típico é o de Silvio Berlusconi, cuja ascensão foi feita sob o tema Mani Pulite (mãos limpas) e se afundou num mar de corrupção.
Mas os tiques e ademanes parecem seguir um padrão definido. Se compararmos as imagens de Benito Mussolini, nas suas arengas às massas, com as de Donald Trump, nos seus comícios, será talvez um choque para alguns ver como certas coisas se repetem. Jair Bolsonaro também tentou, mas é pior actor.
Mas deixemo-nos de coisas sérias – demasiado sérias, até.
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Vejamos o caso de Francisco Everardo Oliveira Silva. O nome real não dirá nada ao leitor, mas se evocar o nome artístico - Tiririca - já todos o conhecem. E aqui está o primeiro truque: criar um nome apelativo, associado a uma imagem forte.
Imaginemos que Alois Shhickelgruber (1837-1903) tinha mantido este nome, o da sua mãe solteira. Mas esta veio a casar com Hans Georg Hiedler, e Alois veio a ser legitimado, e no registro de baptismo foi averbado "Georg Hitler". Quando o filho de Alois, Adolf, veio a singrar na política, as coisas ficaram facilitadas: Heil Hitler é muito mais fácil que Heil Shhickelgruber.
Pequenas coisas, grandes efeitos.
Voltando a Tiririca. Palhaço de profissão, meteu-se na política. Nada de grave: Ronald Reagan e Volodymyr Zelenskyy vieram também das artes performativas, e fizeram (ou estão fazendo) História. Ou como a Imperatriz Teodora, também actriz, que, quando o seu marido Justiniano se preparava para fugir do palácio, se negou a partir, dizendo algo como “da púrpura se faz uma fina mortalha".
Só que a cambalhotas de Tiririca foram variadas, chegando a votar contar o seu partido no Congresso e a contrariar as orientações de Bolsonaro (o que só lhe ficou bem).
Mas interessantes são os slogans da campanha eleitoral, que configuram irreverência – esse condimento tão necessário ao discurso populista, e não só.
Assim, quando lhe perguntaram o que é que fazia um deputado federal, respondeu “na realidade, eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto".
Mas talvez o mais genial foi o “vote em Tiririca: pior, não fica”.
Esta abordagem deu frutos. Em 2018, foi eleito deputado federal com quase meio milhão de votos.
Ridendo castigat mores é uma expressão latina, significando rindo, pune os costumes. O que se fazia no Teatro de Revista, num jogo do gato e do rato, entre os autores, actores e a Censura (e por vezes a PIDE).
O que leva alguns a dizer que naquele tempo é que era bom: competia ao público decifrar as piadas que não podiam ser ditas em claro. Um método interactivo entre o actor e o público, como agora se diz.
Pensando bem, não se devia perder essa escola. Na era dos slogans e palavras de ordem, pôr o público a pensar e a rir é um bom método para evitar o encarneiramento ao estilo do Triunfo dos Porcos, de George Orwell.
Nuno Santa Clara













