NecessidadePor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Foi no DI, Quartel da Graça, que tive a oportunidade de conhecer de perto outros desvalidos. Gente nascida e criada nas encostas do Castelo (agora de S. Jorge), cujas origens se perdem nos tempos. Desde a mítica fundação de Lisboa por Ulisses (daí o nome de Ulissipo), às ocupações por celtas, cartagineses, romanos, vândalos, visigodos, árabes, cruzados variados, castelhanos, franceses e agora os não menos perigosos burocratas de Bruxelas, todos os que não sabiam navegar ou nadar, chegados aqui, por aqui ficaram.
Desse melting pot, cadinho de fusão, resultou aquela boa gente, de cultura típica, castiça e fadista (agora em vias de extinção por nova invasão), enaltecida por pessoas bem pensantes, que têm o cuidado de viver noutras paragens menos agrestes, como nas Avenidas Novas ou no Restelo.
Dessa cultura fazia parte um consuetudinário manual de sobrevivência, magnificamente resumido por um dos seus habitantes, que um dia me confidenciou: pobrezinho sempre, sério nunca. Ou como um outro, para ilustrar um conceito estético: é feio como a necessidade.
Do alto daquele Castelo, mais de vinte e cinco séculos os contemplavam...
Mas a necessidade pode não ser folclórica ou tradicional: a Lei define o estado de necessidade como uma causa de exclusão de ilicitude de uma conduta que sacrifique bens ou interesses de terceiro para afastar um perigo actual de lesão de bens ou interesses do autor ou de terceiros que sejam objectivamente superiores aos bens ou interesses sacrificados.
Traduzindo em português coloquial, a necessidade tem muita força.
E foi assim que uma camarada nosso, do polo social oposto ao dos habitantes da Graça, bom filho de boas famílias, ao chegar ao seu quarto, no primeiro andar do Hospital Militar Principal, na Estrela, constatou que não havia luz, pelo que tirar a prótese, das antigas, com correias e atilhos, se tornava problemático.
Mas fez-se luz no seu espírito: lembrou-se que havia luz no piso térreo, na Capela do HMP, antigo convento. Descendo a escada, entrou na Capela, onde se velava um defunto, e, sem dizer palavra, pegou numa das velas e levou-a consigo para o quarto, assim conseguindo lograr o merecido repouso.
Claro que, no dia seguinte, foi chamado à responsabilidade. Mas a sua defesa foi mais eficaz que a de muitos juristas da nossa praça.
Limitou-se a dizer que, a ele, amputado, a vela fazia falta, mas que, ao morto, não fazia falta nenhuma.
Necessidade a quanto obrigas!
Nuno Santa Clara













