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Colunistas

O peso da HistóriaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Há observadores atentos e desatentos. Para os desatentos, tudo é novidade; para os atentos, não há nada de novo debaixo dos céus.
As últimas guerras, a da Ucrânia e a da Faixa de Gaza, são bom exemplo disso.

5 min de leitura
O peso da História Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Costuma dizer-se que se sabe como começa uma guerra, mas não como acaba. Começa-se sempre num ambiente de euforia – desta vez é que vai! – e acaba-se num pantanal de lama e sangue, do qual se extraem, a grande custo, figuras heroicas, grandes feitos e memórias futuras.

Estava previsto que a Guerra dos Cem Anos acabasse antes do Natal; depois, foi o que se viu. Quase ninguém se lembra do que foram a Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), entre a Espanha e os Países Baixos, ou as Guerras de Itália (1494-1559, com algumas interrupções); mas foram décadas de conflito e devastação, de que poucas memórias ficaram – exceto nos diretamente atingidos.
Vão-se criando focos de tensão até que um megalómano populista ache que está na hora. Chame-se ele Adolf Hitler (que preparou a guerra desde o primeiro dia no poder), Dimitris Ionnides, da Grécia, ou Leopoldo Galtieri, da Argentina (que fizeram guerras de Chipre e das Malvinas no intento de continuarem no poder), ou Vladimir Putin (que pensava que invadir a Ucrânia seria uma “Operação Militar Especial”), todos eles cometeram erros colossais nas áreas da informação e da estratégia, já que o Direito Internacional pouco conta.

Carl von Clausewitz, dentro do espírito racionalista da sua época, estabeleceu um certo número de regras e objetivos para as guerras. O Mestre disse que a Guerra era a forma de submeter o adversário à nossa vontade; o que não é o mesmo que varrê-lo da face da Terra, como espécie daninha.

As guerras a que assistimos ultimamente, nesta velha Europa, entre comunidades rivais, têm mais a ver com as formigas assassinas do que com conflitos entre humanos. É mais a erradicação biológica do adversário do que a submissão à nossa vontade.
Como também noutras paragens, menos influenciadas pelo racionalismo. O ataque indiscriminado do Hamas aos Kibutz ou ao festival de música eletrónica dificilmente pode ser enquadrado dentro de quaisquer regras estabelecidas.
Como se chegou aqui?

Da mesma forma de sempre. Uma minoria turbulenta toma o controlo das multidões, e as pessoas sensatas retraem-se e recolhem-se, com medo das represálias. O grau de cultura não parece impeditivo: a Alemanha dos anos trinta do século passado era uma das sociedades mais evoluídas do Mundo. Cabe aqui recordar uma frase atribuída a um pensador alemão: o meu erro não foi subestimar Hitler; o meu erro foi sobrestimar o povo alemão.

Assim vemos, por exemplo, que, em Israel, a extrema-direita ortodoxa, belicosa e expansionista dita a política da direita liberal, porque, de outra forma, Benjamin Netanyahu não seria primeiro-ministro (e, entre outras coisas, perderia a imunidade); e, para cúmulo, essa minoria belicosa manda os outros combater, estando ela isenta do serviço militar.

O Hamas logrou instalar-se e dominar a faixa de Gaza, em parte porque aquela gente não tem qualquer alternativa para além de sofrer toda a espécie de humilhações e discriminações. Curioso: quando começou a Guerra Colonial, Portugal aboliu o Estatuto do Indígena e estendeu a cidadania a todos os habitantes; a África do Sul, no mesmo sentido, aboliu o Apartheid; e Israel introduziu a diferença entre cidadãos etnicamente judeus e palestinos. Influência das Leis de Nuremberg? Também se aprende com o inimigo.
Criadas as condições, o resto, como costuma dizer-se, é conduta. Com uma particularidade: os melhores serviços de informação do Mundo foram apanhados desprevenidos, e a melhor defesa antiaérea provou ser ineficaz. Da mesma forma que, no 11 de Setembro, o santuário americano foi atacado, por dentro, por uma dúzia de determinados e fanáticos terroristas. Num caso e noutro, o sentimento de despeito foi viral.

Tal como os americanos viraram a sua ira para quem estava a jeito, os israelitas viraram-se contra Gaza – o que não é o mesmo que o Hamas. Por uma boa razão: era um objetivo tangível, capaz de aplacar a ira e o desejo de vingança (a propósito: convém distinguir, na Bíblia, o Velho do Novo Testamento). Resultou numa modalidade de extermínio indiscriminado, em universo não-clausevitziano, tal como fora o ataque do Hamas, ou, voltando mais atrás na História, como foi no gueto de Varsóvia. Com a vantagem de permitir alargar o território, na linha do Direito de Conquista, uma constante desde a fundação do Estado de Israel.
Temos assim duas grandes motivações para a ocupação de Gaza: vingança pelo despeito e pelas barbaridades cometidas; e ganho de segurança, pela ocupação de território.

Mas aqui põe-se uma dúvida: porque só o Norte da Faixa, e não o Sul, de modo a isolar o Hamas (ou o que dele sobrar) do Egito? Talvez numa manobra faseada para varrer todos em direção ao Sul, porque, para Norte e Leste, está Israel. Mas também para defesa e alargamento da extração de gás natural no Mediterrâneo, assim revertido para boas mãos.

Falta a teoria da conspiração. Tal como o ataque surpresa dos japoneses a Pearl Harbour, em 1941, acabou com as reticências dos cidadãos americanos em participar na II Guerra Mundial, tal como os massacres do Norte de Angola, em 1961, geraram a palavra de ordem “Para Angola e em Força”, havia indícios de que algo poderia acontecer; ignorar os avisos veio a revelar-se uma mais-valia.
Será que a História se repete?

Nuno Santa Clara

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