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Colunistas

Arma velha, guerra novaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Desde que o Homem se instalou num território fixo, onde, por natureza, os recursos são limitados, uma forma fácil de o derrotar é fazê-lo render pela fome. São muitos os exemplos. Entre nós pode servir o do cerco de Almada, em 1384, em que a praça capitulou depois de privada de comida e água.

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Arma velha, guerra nova Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

A dimensão do cerco pode variar. Pode ser “apenas” um castro lusitano, um castelo medieval, uma cidade como Lisboa (1384), ou uma praça-forte como Elvas (1658). Nestes dois últimos casos, o cerco falhou, devido a uma intervenção externa.
As dimensões podem ir até ao conjunto das Ilhas Britânicas, tentado na I e II Guerras Mundiais pelos alemães, através de submarinos, ou ao II Império Alemão, na I GM, pelo bloqueio terrestre.
O século XX veio a dar uma dimensão inusitada a este tipo de guerra, e nem sempre entre Estados.

Estaline, na sua fixação em industrializar rapidamente a então jovem União Soviética, determinou a colectivização da agricultura e que os campos alimentassem as cidades e fábricas, e ainda a exportação. Não apreciaram a ideia os camponeses, principalmente na Ucrânia, o celeiro histórico da Rússia, assim privados dos resultados do seu trabalho e das suas pequenas parcelas de terreno. Esses kulak foram incluídos no rol dos inimigos da Revolução, perseguidos, abatidos, enviados para o Gulag, e, pior ainda, deixados morre à fome deliberadamente. As estimativas variam, mas, entre mortos de fome e fuzilados, calculam-se três milhões e meio de vítimas.
Há até registos de canibalismo entre os ucranianos, e isso explica porque, quando os alemães invadiram a URSS em 1941, em muitos locais foram recebidos como libertadores. Isto até perceberem que os objectivos dos nazis eram semelhantes e até mais radicais, visando simplesmente erradicar todos os eslavos. Mas muito do que se passa agora na Ucrânia tem origem nessa colossal tragédia.
É interessante notar que esta política desumana e criminosa foi mais tarde repetida na China por Mao Zedong (Mao Tsé Tung), daí resultando a Grande Fome de 1958 a 1961, com números que variam entre 15 a 55 milhões de mortos; estimativas mais recentes referem cerca de 30 milhões.

Decerto estes massacres não foram uma política deliberada de extermínio, mas o que foi considerado um passo desagradável ou um efeito colateral para atingir um objectivo. Dada a grandiosidade do fim em vista, qualquer oposição era suprimida, pelo silêncio das valas comuns.
Já com a Alemanha nazi a questão era outra. Adolf Hitler escrevera no seu programa político, publicado logo em 1925 no seu livro Mein Kampf (A minha luta) que a Grande Alemanha precisava de Lebensraum (Espaço Vital), pelo que teria de expandir-se para Leste, em busca de terra fértil, petróleo e outros recursos. Naturalmente, isso passaria pela eliminação da população local, primeiro por deportação, mais tarde por métodos mais rápidos e radicais; como se tratava de eslavos sub-humanos (Untermenschen), não haveria problemas morais

Portanto a guerra contra a União Soviética era uma intenção de primeira hora; restava aguardar a oportunidade, que ele pensou ter surgido em 1941.
Todos conhecem o plano Barbarossa, da invasão da URSS por três Grupos de Exército, com os objectivos de Leningrado, Moscovo e o Cáucaso. O que talvez menos saibam é que atrás das tropas seguiam quatro Einsatzgruppen, agrupamentos baseados em unidades
das SS (Schutzstaffel), reforçadas com polícia militar, polícia civil e voluntários das Forças Armadas (Whermacht), com a missão oficial de segurança da área de retaguarda, na prática de eliminar localmente comunistas, judeus e outros indesejáveis; seguir-se-iam os prisioneiros de guerra do Exército Soviético, demasiados numerosos para poderem ser alimentados.
E menos sabem ainda o que era o Hungerplan (Plano de Fome), a cargo do chefe das SS e de todas as polícias, Heinrich Himmler, e o Generalplan Ost (Plano Geral para o Leste), a cargo do número dois do regime, o comandante da Força Aérea (Luftwaffe) e detentor de muitos cargos, Hermann Göring.

Resumidamente, o Plano de Fome previa saquear completamente os recursos do território conquistado e pô-los à disposição das Forças Armadas e do povo alemão; a população que não tivesse sido deslocada extinguir-se-ia pela fome. O Plano Geral previa colonizar com população ariana as terras assim desocupadas e aproveitar as infra-estruturas existentes, desde as quintas colectivas às minas e fábricas.
Destes dois planos ressalta a intenção de eliminar eslavos, judeus e outros, por migração forçada ou morte, de modo a conseguir o Lebensraum. Não se tratava de vergar o adversário à nossa vontade, como dizia Clausewitz; era a extinção completa, como fazem as formigas assassinas.

O decorrer da guerra determinou algumas alterações de vulto. As operações, previstas para terem terminado em dez ou doze semanas, como na Polónia ou emFrança, prolongaram-se por quatro anos. Isto levou a que se passasse em seguida à exterminação em massa dos judeus das terras ocupadas (por exemplo, havia três milhões na Polónia, contra trezentos mil na Alemanha), e a explorar a mão-de-obra dos prisioneiros de guerra, se bem que em condições desumanas; a mortalidade entre eles era enorme. Por fim, alguns dos judeus foram mortos a trabalhar, substituindo os alemães mobilizados, adiando a ida para as câmaras de gás.

Existem decerto outras formas mitigadas de fazer capitular pela fome, como a destruição de colheitas, bloqueios económicos e sanções generalizadas ou específicas. Para quem as aplica, o único critério é o da eficácia; para quem a elas fica sujeito, tudo depende da vontade de resistir.
Examinando o que se está passando na Faixa de Gaza, não faltarão pontos comuns com tudo o que ficou dito; a conclusão, essa, fica com o leitor.
Mas, na verdade, trata-se de uma arma velha numa guerra nova.

Nuno Santa Clara

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