O umbigoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Não é caso único: a China era o Império do Meio; a Roma antiga era o centro do Mundo conhecido (e todos o caminhos também lá iam ter); Jerusalém era o centro de todos os mapas.
Os portugueses, feitos iconoclastas, deram cabo dessas teorias, singrando por mares nunca dantes navegados, encontrando novas gentes, cada qual com o seu centro. Assim nasceu a Aldeia Global, tão badalada; mas, lá por ser global, parece que não deixou de ser aldeia.
Os franceses têm uma expressão curiosa: l´esprit de clocher, literalmente o espírito de campanário. Significa aquela mente de quem não vê para além do que se divisa do alto do campanário da sua igreja paroquial. Pode-se mudar do campanário para o zimbório da Basílica ou para o minarete da Grande Mesquita, mas o espírito mantém-se.
Após séculos de expansão europeia, e agora com a recente globalização e um volume de migrações, forçadas ou não, sem paralelo na História, seria de esperar que as mentes se abrissem ao Outro, ao Diferente, o tal também com um umbigo de referência. Pois não temos dados científicos que arrasaram as teorias de superioridade racial, como temos acesso a milhões de dados que nos explicam quem é e como é o Outro?
Mas o que prevalece é o espírito do umbigo restrito.
Em Portugal há muito que o grande artigo de exportação é o seu povo. Já no século XVI escrevia Sá de Miranda “... ao cheiro desta canela / o reino se despovoa”. Com o tempo, cheiros mais variados foram despovoando o Reino: ouro da Mina, trato da Guiné, ouro do Brasil, libras inglesas, francos franceses, e por aí fora.
Não será descabido considerar que cerca de uma décimo da população portuguesa anda “lá fora”, numa tendência que se acelerou com a ida para o Brasil no século XIX, continuando no século seguinte, bem como no actual, variando apenas quanto aos destinos.
Essa gente, que nos dá a conhecer e nos equilibra a balança de pagamentos, nem sempre é reconhecida cá dentro. E, sobretudo, poucos dos acomodados no Rectângulo têm ideia do que é ser emigrante, sobretudo em meios hostis. O que é ser descriminado, explorado, enganado, ignorado, apenas porque nasceu noutro lado.
Por isso são muito estranhas certas reacções à presença de imigrantes em Portugal.
As mesmas causas produzem os mesmos efeitos. A nossa emigração continua, mas agora partem cérebros e quadros especializados, agora promovidos da agricultura e dos serviços não qualificados para voos mais altos. Deixando em aberto aquilo que no século XX era a nossa característica: o trabalho indiferenciado, para usar um eufemismo. A sua partida deixa um vazio que atrai uma massa de migrantes semelhante à que enviávamos no passado.
O curioso é que, em vez de um sentimento de solidariedade por parte de quem passou pelo mesmo, temos um sentimento de rejeição.
Será que este espírito deriva de uma espécie de atavismo, bem expresso pelo ditado: não peças a quem pediu, não sirvas a quem serviu?
Certo é que a imigração se tornou ponto obrigatório em todos os debates. Mas, se atentarmos bem, os mais assanhados são os que nem tiveram de sair de casa para ir estudar, ou de mudar de terra para arranjar ocupação. Pelo que vêm o Mundo pela perspectiva do próprio umbigo, limitada espacialmente pelo alcance das badaladas do campanário paroquial.
E os que se sentem inseguros, não pelo aumento da criminalidade, mas pela concorrência: mesmo a patrão mais reaccionário não deixará de dar preferência ao melhor trabalhador – sobretudo se cobrar menos.
Nuno Santa Clara













