O macaco, o gato e as castanhasPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
O gato, picado nos brios, aventurou-se a tirar castanhas, queimando as patas; à medida que as tirava, o macaco ia-as comendo. Quando acabou, todo vaidoso (e queimado), perguntou pelas castanhas; e o macaco foi dizendo que as tinha comido, para não esfriarem.
A geração que conhece a história é a mesma que andou tirando castanhas do lume, por conta alheia, embalada em frases como “o soldado português á tão bom como os melhores”. Queimaram as mãos, os pés e os miolos. E as castanhas, ninguém as viu.
Por isso devemos olhar com atenção as guerras que se passam aqui ao lado. Os gatos lá andam, chamuscados e queimados vivos dentro dos blindados ou dos abrigos. Com muitos incentivos, e promessas de montes de castanhas.
Na Palestina, no Líbano e vamos ver até onde mais, os apanhadores de castanhas lá evoluem, eufóricos com o que vão colhendo. Esquecendo que, tal como as de Trás os Montes, estas castanhas também têm uma época limitada.
Isso parece ter compreendido aquela pequena unidade israelita que entrou num posto da ONU, no Líbano. Para o ocupar? Não. Para ter um lugar seguro onde prestar os primeiros socorros aos seus feridos. Acabada a tarefa, retiraram pacatamente.
Não sabemos qual terá sido a reacção da hierarquia, ou seja, dos macacos que os tinham mandado às castanhas. Não foi decerto boa, e com razão: então um dia mandam abrir fogo contra os postos, e no dia seguinte os apanhadores vão lá pedir ajuda?
Estamos intoxicados de boas palavras, tantas e tantas, que até perdem o significado. Tal como (d)escreveu George Orwell, no seu livro Animal Farm (O triunfo dos porcos, na tradução portuguesa). Orwell imaginou um rebanho de carneiros, devidamente industriado, a berrar à ordem: quatro pernas bom, duas pernas mau. O que isso queria dizer não era relevante: importava era interromper qualquer debate com o berreiro do slogan.
E os macacos pulam e pululam, não de árvore em árvore, mas de antena da rádio em antena de televisão.
E os carneiros vão repetindo: todos os nossos bons, todos os outros maus.
Quando acabará a época das castanhas?
Nuno Santa Clara













