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Colunistas

O caminho das pedrasPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Uma velha anedota conta que Jesus, caminhando sobre as águas, ia sendo seguido pelos discípulos, excepto por Judas, já céptico e futuro traidor, que não conseguia acompanhar os outros. Aos seus apelos aflitos, respondeu o Senhor: Pedro, ensina a Judas o caminho das pedras!

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O caminho das pedras Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Irreverência à parte, o sabor desta anedota está tanto na abordagem antropomórfica da religião como naquele fundo de sabedoria popular. A que diz “ajuda-te, que Deus te ajudará”.
E, na verdade, andamos todos à procura do caminho das pedras. Perante tantos Cristos e tantos falsos profetas, não é tarefa fácil.
Indo às origens da filosofia grega, nómeno é a coisa em si, por oposição ao fenómeno, que é a coisa tal como nos é apresentada, ou como nos parece.

Logo aqui surge a tentação de dividir o mundo entre os (poucos) sábios que chegam aos nómenos, e os (muitos) néscios que se ficam pelos fenómenos.
A chamada Era da Informação, com a sua capacidade infinita de veicular dados e elementos de decisão, veio piorar as coisas.
Das queixas de falta de informação caiu-se na informorreia, neologismo que, por analogia com diarreia, significa um disparar de coisas cujo valor intrínseco é semelhante a uma descarga intestinal.
Como distinguir o trigo do joio?

Em estratégia, militar ou outra, a arte está em levar o adversário a fazer a nossa vontade, e todos (?) os meios servem para esse fim. O embuste, a decepção, a desinformação, são, entre outras, a moeda corrente desta actividade. Mentir é, portanto, um dever patriótico.
Daí que muitas questões do passado ainda estejam por resolver.

Por exemplo, se os japoneses não tivessem atacado Pearl Harbour, a 7 de Dezembro de 1941, não se sabe se os EUA teriam entrado na II Guerra Mundial. O lobby isolacionista era maioritário, mas o ataque do Japão, sem declaração de guerra, fez mobilizar os americanos e a decidir por unanimidade entrar no conflito, de um dia para outro. Visto friamente, o embargo americano total de petróleo ao Japão só podia desencadear a guerra; os serviços de informação sabiam da ameaça, mas o ataque foi uma surpresa – providencial, pelo que se viu depois.

Recentemente, uma falha de informações apanhou Israel de surpresa, com a chacina abominável de 1139 civis inocentes. Mas a resposta, que ainda dura, parece ter sido inspirada pela mesma inefável providência.
Uma vez desencadeado processo, a questão está em saber quando e como acabará. No caso dos EUA, acabou com a emergência de uma superpotência. E no caso de Israel? Com a emergência de uma potência regional?

Não faltou quem dissesse que o objectivo de Israel em Gaza era o controlo da plataforma de gás natural Leviatã. Talvez fosse, mas entrou em jogo outro factor: o que, na gíria militar, se chama a exploração do sucesso. A destruição da faixa de Gaza, aliada a uma política de genocídio diferido, fez alargar o teatro de operações, primeiro ao Líbano, depois à Síria, a seguir ao Iraque, depois... Aquele crescendo da lógica das armas que se torna difícil inverter.

Assiste-se, como em todos os conflitos, à guerra dos comunicados e da propaganda, agora em tempo real e a nível global. As acções de propaganda, quando bem analisadas, permitem descobrir a intenções de quem as leva a cabo, seja vender sabonetes, ganhar umas eleições ou vencer uma guerra. Dito de outra forma, branquear os dentes não é um fim em si; é um meio para seduzir alguém.
Pois nestas de propaganda visionei um vídeo em que era explicado um conjunto de operações que culminou no ataque israelita ao Irão. Coisa metódica: primeiro eliminar as defesas aéreas sobre a Síria e o Iraque; depois executar o ataque, passando sobre esses países; neutralizar a defesa antiaérea do Irão e atingir os objectivos. Tudo graças a essa maravilha que é o avião F-35 e a sua panóplia de armamento.

Se era para vender aviões F-35, missão cumprida. O pior é que, à mistura com objectivos militares imediatos, era mostrado o Eixo do Mal, em que a linha Irão-Iraque-Síria-Líbano correspondia ao tramo final do famigerado projecto chinês Belt&Road, de ligação terrestre, combinada com marítima, entre o extremo Oriente e a Europa, versão moderna da Rota da Seda.
Estando fora de causa Israel como ponto de chegada ao Mediterrâneo, restava o Líbano ou a Turquia, a Norte, ou o Egipto, a Sul, cada um com os seus inconvenientes. Com a ocupação do Líbano, o projecto chinês fica, pelo menos, condicionado.
E assim, por decifração da propaganda, encontramos o caminho das pedras.

Nuno Santa Clara

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