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Masoquismo colectivoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Tomando um povo como uma entidade colectiva, dotada de vida própria, como um enxame, um cardume ou uma alcateia, força é reconhecer que terá nascimento, crescimento, eventualmente reprodução, e morte.

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Masoquismo colectivo Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Batalhões de historiadores, arqueólogos, biólogos variados e mais sumidades, espiolham civilizações defuntas, procurando os motivos da extinção, sobretudo quando acontecem sem causas externas, como os Maias ou os Kmer. Talvez procurando um remédio para a nossa própria extinção...

Pois se vida há, terá naturalmente altos e baixos, por razões externas e/ou internas. Períodos de euforia, e períodos de depressão. Reclamam-se alguns dos méritos dos anos das vacas gordas, perpetuando-se em pirâmides, arcos de triunfo ou obras públicas. Procuram-se afanosamente os culpados quando chegam os anos das vacas magras. E aqui têm um papel importante os sacerdotes, gurus, xamãs e afins, que detêm as receitas infalíveis para fazer a expiação e regressar a um passado glorioso, de que têm apenas uma referência histórica, que não foi vivida. Vamos Fazer o Nosso Povo Grande, Outra Vez!

Exorcizar os demónios implica acções variadas, desde sacrifícios humanos à construção de templos votivos ou estátuas colossais, como na ilha da Páscoa. O resultado, em regra, não corresponde às expectativas, e deixa apenas alguns quebra-cabeças para os arqueólogos, no futuro.
Mas vamos aqui tratar, não da extinção, mas da vida moldada pelos ciclos bons e maus.
O conceito de Bem e de Mal é fluído, como sabemos. Mesmo o bem-estar é relativo; atente-se ao fiel escudeiro Grilo do mui rico Jacinto de “A Cidade e as Serras”, de Eça de Queirós. Face à depressão crónica e irracional de Jacinto, dizia o perspicaz Grilo: Sua Excelência sofre de fartura!

No individual como no colectivo. Para o Homem irrequieto um Mundo sem conflitos torna-se enfadonho, como o palacete do n.º202 de Jacinto. Melhor é baralhar e tornar a dar – sobretudo para quem tem baralhos viciados.
Quando dá para o torto, há que apurar responsabilidades. E aqui entram os novos xamãs, os Salvadores da Pátria, os Homens Providência, os Novos Ideólogos. Que identificam rapidamente os bodes expiatórios: certas minorias, determinados grupos, adversários conhecidos.

O resto, foi contado muitas vezes, em muitas Histórias, de muitos povos.
Mas há um instante curioso. É quando os xamãs, na fase de preparação e na fase de transição, apelam à purificação. Os pecados do Povo são denunciados, os prevaricadores perseguidos, a expiação posta em marcha. Instala-se um fervor de penitência, de auto flagelação, de expiação, que mobiliza toda a gente e legaliza todos os excessos.
É um masoquismo aparentemente colectivo, porque que cada um reconhece apenas os pecados dos outros; os próprios são passíveis de absolvição, porque foram cometidos por ignorância ou manipulação.

Um exemplo clássico é o da França vencida e parcialmente ocupada, durante a II Guerra Mundial, em que a governação do marechal Pétain era apresentada como a expiação e salvação após a derrota, que era devida aos muitos pecados da sociedade francesa, como se os sucessivos Governos e Estados-Maiores estivessem isentos de culpas. Daí à Colaboração, foi um pequeno passo. Não representavam os vencedores e ocupantes um Mundo Novo?
E assim as sociedades aceitam sacrificar os seus princípios, os seus valores, as suas conquistas sociais, por uma catarse, uma purificação, apregoada pelos modernos xamãs.

Que, invariavelmente, mudam de discurso quando estabilizados no poder.
Sempre em nome do Povo, mas passando ao lado desse Povo, do qual cito um dos seus melhores intérpretes: António Aleixo, poeta analfabeto, que escreveu; “Vós que lá do vosso Império / Prometeis um Mundo Novo / Cuidado não queira o Povo / Um Mundo Novo a sério”!
Quando se olha Além Atlântico, fácil é adivinhar a vinda de uma era de purificação, expiação, e culpabilização, individual ou colectiva. Em que serão inexoravelmente castigados os inocentes, e glorificados os culpados, como de costume.
Quanto ao Povo, resta-lhe num mergulho num masoquismo que ele próprio escolheu...

Nuno Santa Clara

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