Entre manteiga e canhões: A encruzilhada europeia num mundo em transformaçãoPor Carlos Alberto Correia
Barreiro

Por Jornal Rostos
Olhando para a Europa, é impossível ignorar que este continente, outrora palco de guerras devastadoras, vive de novo numa tensão constante entre a necessidade de reforço da segurança e a urgência de garantir o bem-estar social das populações.
A guerra na Ucrânia, os conflitos no Médio-Oriente, os resquícios da crise migratória e as pressões geopolíticas vindas do leste, bem como as disputas comerciais e tecnológicas com grandes potências, trouxeram, novamente, às capitais europeias a preocupação com a defesa. Esse impulso envolve não apenas o aumento dos orçamentos militares, mas também a busca por autonomia energética e tecnológica. Há um ressentimento difuso em relação à dependência externa — quer de gás, quer de semicondutores —, o que encoraja à reorientação de políticas industriais, investimentos em infraestrutura estratégica e acordos comerciais mais seletivos.
Entretanto, tais movimentos ocorrem em simultâneo com o desafio interno de manter o chamado “modelo social europeu”. A Europa, embora heterogénea, é reconhecida pelas redes de proteção social: saúde pública, educação, pensões “adequadas”, políticas de combate à desigualdade e à exclusão. Este sistema requer recursos contínuos para se adaptar aos novos desafios, como a transição demográfica, a digitalização e, sobretudo, a urgência na transformação verde. A conta não é pequena, e o dilema “manteiga versus canhões” torna-se agudo: cada euro a mais em defesa pode ser um euro a menos no desenvolvimento sustentável, na assistência social, na cultura ou na pesquisa académica.
A inflação global, impulsionada pelos choques na cadeia de suprimentos e pelos gastos remanescentes da pandemia, também complica o cenário, tornando mais onerosas tanto as políticas de segurança quanto as sociais. Se a inflação exige dos Bancos Centrais europeus aumentos de juros, isso encarece o crédito, limita o investimento público e pressiona o crescimento económico. O círculo vicioso ameaça tanto a capacidade de inovar no setor militar quanto de proteger o poder de compra dos cidadãos — especialmente dos mais vulneráveis.
Há, por outro lado, vozes que argumentam que a escolha não precisa ser binária. Alguns setores políticos, empresariais e da sociedade civil acreditam numa estratégia de “dupla transição” — verde e digital — que torne a Europa mais resiliente e competitiva, mantendo o bem-estar social e a paz duradoura. Segundo essa visão, não se trata apenas de substituir a manteiga pelos canhões, ou vice-versa, mas de encontrar uma síntese: investir em tecnologias de defesa mais inteligentes, menos custosas a longo prazo, e criar um ecossistema económico onde as indústrias de ponta gerem empregos, renda e inclusão social.
A busca por autonomia estratégica sem sacrificar o Estado de bem-estar social exige, portanto, refinamento político (continuamente a escassear), diplomacia e capacidade de planeamento. Implica fortalecer a União Europeia não apenas como bloco comercial, mas também como protagonista geopolítico, capaz de influenciar normas internacionais, dissuadir potenciais ameaças e, ainda assim, liderar pelo exemplo em direitos humanos, ambiente e igualdade.
O dilema manteiga-canhões não é novo, mas a conjuntura atual — marcada pelo ressurgimento de tensões geopolíticas, pela incerteza climática, pelas transformações tecnológicas e por cicatrizes sociais deixadas pela pandemia, pela ameaça crescente das extremas-direitas, exige da Europa uma reflexão profunda sobre as suas prioridades. A resposta a esse desafio moldará não apenas o equilíbrio interno do continente, mas também a perceção global de que um caminho intermediário, que concilie segurança e prosperidade social, ainda é possível num mundo cada vez mais complexo e interligado.
Sem querer ser desmancha-prazeres, apenas como adjuvante ao aferimento do grau de complexidade dos problemas a resolver trago â colação a máxima latina “Si vis pacem, para bellum” — “Se queres a paz, prepara-te para a guerra” — que nos remete à lógica ancestral de que a segurança só é alcançável através da prontidão militar. No entanto, no contexto europeu contemporâneo, este ditado ganha novas camadas de interpretação. Preparar-se para a guerra não implica, necessariamente, mergulhar na corrida armamentista ou abdicar do bem-estar social, mas sim construir uma capacidade estratégica abrangente, reforçar alianças internacionais, consolidar instituições democráticas e diversificar recursos energéticos e tecnológicos.
A Europa, ao assimilar o espírito deste princípio secular, poderá não apenas defender-se contra as ameaças externas, mas também projetar o seu “poder suave” para garantir uma paz duradoura, equilibrando o imperativo da segurança com o compromisso inalienável de uma sociedade próspera, equitativa e solidária. Assim, “para bellum” não se traduzirá apenas em canhões, mas igualmente em resiliência política, inovação tecnológica e coesão social (igual a mais e não menos democracia) — ingredientes essenciais para uma paz efetiva e sustentável.
Tudo isto possível, em abstrato, é confrontado, no dia-a-dia, com a perceção do apodrecimento dos ideais democráticos e, consequentemente, com o avançar de ideologias totalitárias a ganhar espaço com a proposta de ideias simplistas para resolução de problemas complexos, as quais, se não forem desmascaradas conduzirão, pela ineficácia e demagogia que comportam, a perturbações bem nefastas a este já tão complicado mundo.
Porque o momento é grave e as decisões terão de ser tomadas aqui estou, de megafone na mão, servindo-me da manteiga e canhões e do “para bellum”, para recordar Einstein quando dizia não saber como seria a terceira guerra mundial, mas sabia, com certeza, que a quarta se travaria com paus e pedras; acrescentando eu, caso ainda haja alguém para as travar.
Carlos Alberto Correia
Com recurso ao chatGPT













