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Perceção e RealidadeQuando os factos se tornam reféns das narrações
Por Carlos Alberto Correia
Barreiro

A propósito do estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, “Barómetro da Emigração”, felizmente bastante discutido na comunicação social, pensei ser útil dedicar algum tempo a refletir sobre como, nos dias de hoje, as perceções, criadas pelos muitos meios de informação (e desinformação), podem levar as gentes a tomar a nuvem por Juno, isto é, a abandonar o conhecimento factual, por narrativas montadas tendo em vista não o esclarecimento da verdade, mas tão só criar algo que não o sendo possa passar pela realidade mais favorável a qualquer grupo, empresa, partido ou nação.

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Perceção e Realidade Quando os factos se tornam reféns das narrações Por Carlos Alberto Correia Barreiro

Por Jornal Rostos

É claro que este fenómeno sempre existiu, no entanto, atualmente, os meios postos à disposição de quase todos permitem o crescimento exponencial das mais variadas versões da (ir)realidade.

Vivemos numa era em que a perceção, alimentada por informações moldadas e manipuladas, frequentemente se sobrepõe à realidade. Denominou-se – na primeira era de Trump - tal fenómeno como "pós-verdade", termo que ganhou centralidade no debate público. Ele descreve um ambiente onde os factos objetivos têm menos influência na formação da opinião pública do que os apelos emocionais e crenças pessoais. Sob este prisma, as democracias enfrentam desafios sem precedentes, enquanto populismos e regimes autoritários se aproveitam do caos informacional para solidificarem o seu poder.
A pós-verdade prospera no terreno fértil da sobrecarga de informação. No passado, o acesso à novidade era escasso e controlado. O advento da internet e, mais recentemente, das redes sociais e plataformas digitais, mudou essa dinâmica de forma radical. Hoje, qualquer indivíduo com um smartphone é ao mesmo tempo consumidor e produtor de conteúdo. No entanto, essa liberdade veio acompanhada de um problema: a dificuldade de distinguir entre fatos verificáveis e narrativas manipuladas.
As chamadas fake news são o exemplo mais evidente de como as perceções podem ser moldadas de forma artificial. Um vídeo, uma foto editada ou até mesmo um “cabeçalho” sensacionalista podem ser suficientes para criar indignação ou reforçar preconceitos. Estudos já demonstraram que as notícias falsas têm 70% mais hipóteses de serem compartilhadas nas redes sociais do que as verdadeiras. Não porque as pessoas sejam ingénuas, mas porque essas narrativas apelam diretamente às suas emoções e convicções primárias.
Nesse cenário, os algoritmos das redes sociais desempenham um papel fundamental. Programados para maximizar o aliciamento, mais ou menos acéfalo dos utilizadores, dão prioridade a conteúdos polarizadores, que retêm a atenção do seu alvo por mais tempo. Assim, criam bolhas de opinião, onde visões de mundo homogéneas são amplificadas e versões conflituantes da realidade são deslegitimadas, sobrealimentando crenças já possuídas pelo reforço do mesmo tipo de conteúdo. Essa dinâmica fragmenta o tecido social e aprofunda a polarização política.

A fragilidade das democracias modernas está intrinsecamente ligada à manipulação da perceção coletiva. Líderes populistas e regimes autoritários têm compreendido e explorado com habilidade as vulnerabilidades do ambiente informacional. A estratégia é simples, mas eficaz: desacreditar instituições tradicionais, como a imprensa e o sistema judiciário, diabolizar o outro, o emigrante, o diferente, ao mesmo tempo em que promovem narrativas alternativas, desviadas da realidade, mas que reforçam a sua visão do mundo.

Donald Trump, Jair Bolsonaro, Viktor Orbán, Putin e outros líderes são exemplos contemporâneos de como o populismo encontrou nas redes sociais uma aliada poderosa. Ao rotularem informações desfavoráveis como "fake news" ou ao divulgarem teorias da conspiração, lançam dúvidas sobre a própria ideia de verdade. Essa estratégia enfraquece a confiança pública nas instituições democráticas e pavimenta o caminho para a centralização do poder.

Regimes totalitários, por sua vez, utilizam métodos semelhantes com um grau maior de sofisticação. Na China, por exemplo, a combinação de censura estatal com tecnologias de vigilância digital criam um ambiente onde a manipulação da perceção não é apenas uma ferramenta de controlo, mas parte integral de funcionamento do Estado.

Embora as tecnologias audiovisuais, plataformas sociais e inteligência artificial tenham contribuído para agravar os perigos da pós-verdade, elas também oferecem ferramentas para enfrentá-los. A solução não está em rejeitar esses avanços, mas em redirecioná-los para fortalecer os pilares democráticos e a educação mediática.

Primeiramente, é necessário desenvolver mecanismos de verificação de factos mais robustos, baseados em IA. Algoritmos treinados para identificar conteúdos enganosos podem ser integrados nas plataformas digitais, sinalizando aos utilizadores qualquer informação não confiável. Algumas iniciativas já estão em andamento, como, por exemplo, o uso de etiquetas em publicações nas redes sociais indicando a sua veracidade.

Além disso, a educação digital deve ser uma prioridade nas políticas públicas.

Ensinar os cidadãos a identificar fontes confiáveis, a questionar narrativas enviesadas e a compreender o funcionamento dos algoritmos é essencial para reconstruir a resiliência democrática. A alfabetização mediática deve começar nas escolas, mas também atingir adultos por meio de campanhas públicas e programas educativos.

Por fim, a colaboração entre governos, empresas de tecnologia e organizações da sociedade civil é indispensável. As plataformas digitais não podem ser tratadas como meras empresas privadas; elas têm uma enorme responsabilidade pública. Regulamentações que promovam a transparência nos algoritmos e incentivem a moderação de conteúdos prejudiciais são passos importantes para mitigar o impacto da desinformação.

A análise da relação entre perceção e realidade aponta para um futuro de luta constante contra as armadilhas da pós-verdade. Contudo, há motivos para otimismo. A história mostra que a humanidade é resiliente e capaz de superar os desafios mais complexos. Assim como outras revoluções tecnológicas trouxeram crises iniciais, mas foram eventualmente integradas no tecido social de forma benéfica, o mesmo pode acontecer com as ferramentas digitais contemporâneas.

Se formos capazes de aproveitar a tecnologia para promover uma cidadania mais crítica e informada, o cenário atual pode transformar-se em oportunidade para fortalecer, e não enfraquecer, as democracias. No entanto, o sucesso dependerá de uma ação coordenada, consciente e urgente. O tempo é um fator crítico. Cada minuto em que as perceções distorcidas prevalecem sobre a realidade é um passo rumo ao abismo.

A pós-verdade não é inevitável, mas sim uma escolha coletiva. Cabe-nos decidir se usaremos os meios disponíveis para perpetuar a confusão ou para iluminar o caminho com clareza e responsabilidade. O futuro, ainda incerto, será moldado pelas decisões que tomarmos hoje.

Não fora a extensão deste artigo ousaria, ainda, falar na ação policial – e da sua difusão mediática - decorrida na semana passada no Martin Moniz. Deixo porém à vossa inteligência a análise do como, quando e porquê de uma tão desajustada, como pontual, manifestação de força.

Carlos Alberto Correia

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