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Colunistas

Um Xanax, por favor…Por Carlos Alberto Correia
Barreiro

Tenho este vício terrível, cada vez menos recomendável, de pensar sobre o que vai acontecendo nestes tempo e mundo onde vou permanecendo. Como aquilo que se me aparenta é pouco tranquilizador consultei astrólogos, tarôs, videntes e outros perscrutadores do intangível para ver se conseguia tranquilizar, um nada que fosse, o meu indiscutível pessimismo.

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Um Xanax, por favor… Por Carlos Alberto Correia Barreiro

Por Jornal Rostos

Por mais voltas que dê, mesmo nos sonhos mais suaves, aparece-me sempre um Trump, com milhares de dedos a baralharem algoritmos e bandejas com cabeças de “oligarcas americanos” com a profunda convicção de que governar um país é o mesmo que gerir uma empresa lucrativa. Não se riam que isto é mesmo um pesadelo angustiante!

Vejamos então:

As tensões internacionais continuarão a dominar a agenda global em 2025, com conflitos persistentes no terreno e novas dinâmicas emergindo em arenas tradicionais e digitais. À medida que a tecnologia redefine as estratégias de guerra e diplomacia, as linhas entre batalha física e cibernética tornar-se-ão cada vez mais ténues.
A guerra na Ucrânia, que já ultrapassou uma década de conflitos intermitentes, (Crimeia, 2014), continua a ser um intenso campo de batalha tanto físico quanto cibernético, apesar de alguns esforços internacionais para intermediar a paz, a situação permanece ao rubro.
A Rússia tem intensificado as campanhas de desinformação nas redes sociais, visando desestabilizar a coesão interna da Ucrânia e minar o apoio internacional ao país. O Ocidente, por sua vez, aumenta o envio de armamento e recursos cibernéticos para Kiev, promovendo também a guerra digital paralela. Neste ano a probabilidade de um cessar-fogo definitivo parece-me distante.
A disputa histórica entre israelitas e palestinos continua marcada por violência, tensões territoriais e religiosas. Apesar das esperanças, penso que ilusórias, o putativo cessar-fogo, por estes dias a querer tornar-se credível, o ano de 2025 deve testemunhar uma intensificação dos conflitos em Gaza e Cisjordânia, com a guerra cibernética a assumir um papel crescente. Palestinos e israelitas utilizam drones, inteligência artificial e ferramentas de vigilância para atingir alvos estratégicos, enquanto campanhas de desinformação proliferam nas redes sociais, polarizando divisões globais sobre a legitimidade das ações que cada lado leva à prática.
Os Estados Unidos manterão o apoio incondicional a Israel, enquanto organizações como a ONU enfrentam desafios, cada vez maiores e cada vez menos eficientes, para implementar soluções concretas diante das polarizações político/religiosas.

A tudo isto acrescerá a postura agressiva dos Estados Unidos, agora sob o comando de Donald Trump no segundo mandato, intensificando a competição com a China e o Irão, abrindo espaço para o agravamento das questões em aberto em Taiwan e Coreia do Sul. A guerra comercial e as sanções são acompanhadas por batalhas cibernéticas que visam infraestruturas críticas e propriedade intelectual. Pequim continuará a consolidar alianças regionais, como a parceria com Moscovo e países do Médio Oriente, para contrabalançar a influência americana.

O papel da União Europeia e da NATO é particularmente sensível. A falta de coesão interna entre os países do bloco europeu dificulta uma resposta unificada às ameaças russas e à pressão americana. Enquanto isso, a NATO tentará sobreviver à era Trump e modernizar as capacidades digitais (e não só) para lidar com ataques cibernéticos (e outros) cada vez mais sofisticados. Esta é uma área onde não existem fronteiras físicas e os danos podem ser devastadores. Ataques de ransomware, espionagem e desinformação são armas predominantes entre nações. Sem regulamentação global efetiva, as redes sociais continuarão a ser amplamente exploradas por governos e atores paraestatais.

Campanhas de desinformação alimentam tensões internas e internacionais, enquanto “deepfakes” e “bots” criam um clima de paranoia e incerteza. Governos autoritários, como o da Rússia e da China, utilizam impunemente essas plataformas para promover narrativas favoráveis, enquanto as nações democráticas lutam – ou devê-lo-iam fazer - para equilibrar liberdade de expressão, informação credível e segurança nacional, não se deixando contagiar pela paranoia do capitalismo de vigilância a utilizar-nos como produtos e consumidores, permitindo que as redes sociais permaneçam como arena sem qualquer regulamentação, onde a desinformação prolifera e a polarização cresce impunemente. Plataformas como X (antigo Twitter), TikTok, FaceBook e Instagram são campos de batalha para influenciar opiniões públicas, minar eleições e espalhar propaganda. A falta de uma estrutura global para controlar esses espaços permite que atores mal-intencionados explorem vulnerabilidades das democracias. Faço aqui uma chamada de atenção para que não se confunda responsabilização das plataformas (continentes) com atos censórios (ações negativas sobre os conteúdos).
Existem, no entanto, movimentos de resistência democrática. Ativistas, jornalistas independentes e comunidades locais utilizam as mesmas redes para documentar abusos de direitos humanos e criar consciência global, equilibrando, em parte, os danos causados por campanhas de desinformação. Deveremos, porém adiantar que não passam de uma pequena gota, sem grandes meios ou eficiência, no oceano poderosíssimo dos grupos profissionais e de” inteligência” das agências estatais, produtores de desinformação e de teorias conspirativas, na melhor tradição de Goebbels, reafirmando que uma mentira muitas vezes reiterada passará a verdade incontestável. Até porque, na distribuição de conteúdos está provado que o incitamento ao ódio e à inveja têm “rendimento” bem maiores que os contrários. Fiéis à sua natureza os algoritmos continuarão a servir mais do mesmo aos incautos – ou nem isso - utilizadores.

Deste modo embora seja improvável que 2025 traga um mundo mais pacífico, poderemos observar débeis tendências no facto de algumas organizações internacionais começarem a tratar a guerra cibernética como prioridade, discutindo tratados globais para regulamentar o uso de armas digitais. Isto, porquanto a militarização do espaço digital, verificada na corrida por supremacia cibernética, se intensifica, com as grandes potências a investir intensamente em inteligência artificial e (in)segurança digital.

A transformação do espaço digital num campo de disputa global é talvez o aspeto mais marcante do cenário de 2025. Os avanços tecnológicos ampliaram o alcance destas agressões à distância, que agora se estendem para além dos sistemas governamentais, afetando infraestruturas críticas, economias inteiras e até mesmo sociedades civis.
Estes ataques podem ser tão devastadores quanto os físicos, com o potencial de interromper redes de energia, sistemas financeiros, meios hospitalares, transportes e outras comunicações essenciais. Além disso, a proliferação de “fake news”, manipulação de algoritmos e campanhas de desinformação têm efeitos tangíveis, desestabilizando democracias, ampliando polarizações sociais e enfraquecendo a confiança nas instituições.
Se antes a luta pelo poder global era travada em campos de batalha ou mesas de negociação, amanhã o cenário digital será a principal arena para determinar quais nações e atores obterão o favor de gentes e ideias.

A construção da paz dependerá crucialmente da capacidade das nações para criar um equilíbrio entre inovação tecnológica e segurança coletiva através da regulamentação das redes sociais e da Inteligência Artificial. O papel destes meios no fomento da instabilidade global destaca a urgência de estabelecer diretrizes internacionais que protejam a liberdade de expressão, mas também impeçam o uso malicioso dessas plataformas. A criação de estruturas de supervisão e transparência pode ajudar a mitigar abusos. Por outro lado é essencial que organizações como a ONU e União Europeia se adaptem rapidamente às novas realidades tecnológicas para se tornarem relevantes como mediadoras de conflitos.

O ano de 2025 representa um ponto de inflexão onde a definição do poder global transcende as fronteiras físicas, migrando para espaços digitais e narrativos. As nações que souberem equilibrar força militar, capacidade tecnológica e legitimidade moral terão mais oportunidades para equilibrar os poderes mundiais. No entanto, como já foi referido, as falhas na regulamentação e cooperação internacional podem criar um mundo mais instável, com divisões cada vez mais profundas e mostrarem-se como um obstáculo quase intransponível para uma vivência democrática como aliás se pode observar na emergência de três putativos desejos imperiais: a Rússia, a China e, com a resolução intempestiva do Supremo Tribunal , a América de Trump, a qual ao declará-lo inimputável em todos os atos presidenciais, autoriza-o, com total impunidade, a reclamar qualquer nova extensão territorial, comprando, anexando ou invadindo aquilo que lhe der na gana. Ah! E ainda não sei o que dizer sobre a Índia e a Indonésia!

Depois de toda esta exposição, cheio de boas intenções didáticas e quase divinatórias, tenho de confessar que não acredito na benevolência dos tempos a vir. O que vejo é um mundo a (des)unir-se nesses grandes blocos, numa espécie de fúria suicidária, contando ogivas, aliciando parceiros, todos prontos para um enorme churrasco universal.

Preciso de dormir tranquilo! Por isto é que peço encarecidamente que alguém me traga, com urgência, um Xanax.

Carlos Alberto Correia

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