Eu uso o FacebookCarlos Alberto Correia
Barreiro
Como presente de anos pensei comemorá-los fazendo uma espécie de apanhado – com algum sabor valorativo – daquilo que ele representa/representou para a nossa vida social.

Por Jornal Rostos
Foi sua intenção declarada constituir-se em plataforma para facilitar ligações entre pessoas. Talvez assim o tenha sido no início. Confesso já não me lembrar. De qualquer modo permitiu que muita gente que se perdera no tempo voltasse a encontrar e a ser encontrada por quem por eles se interessasse. Coisa muito válida e a propósito.
No entanto, como tudo, a sua existência foi-se modificando ao longo dos tempos. Tornado palco preferencial para partilha de conteúdos e formação de comunidades virtuais em larga escala, breve, abandonando a bandeira de incentivar pluralismo e liberdade de expressão se mancomunou com os seus algoritmos e, por razões diversas, mas sempre ligadas a interesses comerciais lucrativos, começou a usar triagens que afunilavam a difusão das comunicações por traçamento de perfis e seleção de quem seria recipiendário dos “posts” publicados. Assim implodiu o propósito de alargar a comunicação e desapareceu a propalada liberdade.
Perguntam-me então porque raio utilizo esses meio tornados tão contraditório às suas declarações iniciais.
A resposta, meus amigos, é porque, apesar de tudo, me permite alcançar interesses próprios. É verdade que ele me usa como produtor de informação que irá vender algures ou utilizar para instrução das enormes (e perigosas) bases de dados em que se constituiu e com os quais negoceia com outras potências informáticas.
Explico melhor.
A informação sempre foi fonte de poder. Ainda não há muito tempo a média escrita, depois o rádio, a seguir a televisão (claro não vou falar nos serviços de informação dos Estados), possuíam o monopólio das notícias, permitindo-lhes, de certo modo, estabelecer a importância de coisas e acontecimentos, a seu único critério. O cidadão comum “papava” de forma quase passiva o que lhe queriam servir, ainda que censura não houvesse.
As plataformas como o Facebook e os telemóveis destruiram esse poder único. Qualquer pessoa com acesso a estes meios poderá fazer, em qualquer lugar e momento, a difusão de acontecimentos que nunca passariam nos media. É claro que isto não agradou nem aos jornalistas, nem aos donos dos meios de comunicação. Não é que não continuassem poderosos e capazes de prosseguir no papel de fazedores de opiniões. Simplesmente perderam o monopólio. E mais, com a concorrência cada vez mais poderosa das plataformas foram diminuindo o sustentáculo principal que os mantinha. A publicidade! As plataformas eram mais baratas e, com a criação dos “perfis” criaram o que os publicitários sempre desejaram: a publicidade direcionada a grupos interessados em vez de, como nos meios habituais, ser lançada às cegas para uma multidão conspícua e desinteressada.
Foi tudo positivo nesta alteração? Evidentemente não! Nada há no mundo que não comporte verso e inverso. Assim, democratizada a produção de informação, abandonou-se, nessas plataformas, o poder da “edição”. Num meio convencional a notícia terá de ser confirmada e aprovada para publicação. Na plataforma sai o que o escrevente quiser, seja ou não verdadeiro ou correto. Pumba! Não há nada perfeito no mundo! Assim, a liberdade de informação virou-se contra ela própria, tornando-se, muitas vezes em pura desinformação e mesmo, em profunda manipulação.
Poderia continuar a especificar o porqê e o como destas afirmações. Não é esse o meu intento, quer por questões de espaço, quer porque o título que dei a esta crónica pressupõe uma justificação, mormente porque apesar daquilo que apontei às plataformas continuo a servir-me delas, sobretudo do Facebook.
Podem espantar-se agora, com toda a razão, por aquilo que venho confessar a público. Como muitos sabem eu escrevo, por isso quero publicar e isto sempre foi um problema neste país. Compra-se poucos livros – eu sei, eu sei, a população do País não é grande e o dinheiro não abunda – a publicação é difícil. Mesmo quando se consegue mandar um livro cá para fora, subsistem os problemas de distribuição e divulgação. A distribuição, cada qual desenrasca-se, mas a divulgação é um sarilho. Cara como os diabos, só as grandes editoras conseguem suportar o custo dos anúncios. Assim, o pobre escritor, por melhor que seja, ou tem a rara sorte de uma editora poderosa apostar nele, ou fica com uma carrada de livros na mão de que não sabe como se desenvencilhar. É aqui que o afunilamento das redes sociais aparece como oásis salvador para o escrevente. Faz um “post” todo catita, pespega-o, como anúncio baratinho em qualquer rede e, zumba! Lá vai ele a caminho de quantos perfis foram selecionados como amantes de livros. Garanto, são aos milhares.
Aqui fica justificada a razão por que uso o Facebook apesar das maldades praticadas. Já agora aconselho a que vão pondo uns gostos para diversificar a rede e, não cedam à tentação de ficarem agarrados ao computador ou “smartphone” o dia inteiro. É isso mesmo que eles desejam e são peritos a ativar os vossos interesses. Controlem o tempo que querem ficar na rede.
Pronto, já disse um décimo daquilo que seria necessário dizer. Mas é assim, cada um dá o que pode!
Já agora, parabéns ao FaceBook|!
Carlos Alberto Correia













