Operação Dead WaterPor Nuno Santa Clara
Barreiro
Falo de coisas mais recentes, se não na área da Tecnologia ou da Ciência pura, pelo menos na aplicação imediata, como no caso do secular “desenrasca”.

Por Jornal Rostos
Foi assim que os portugueses iniciaram o desvio de navios e aviões comerciais, com os casos do navio Santa Maria e do avião da TAP, no início dos anos sessenta, que vieram a tornar-se corriqueiros anos mais tarde, e cujos efeitos ainda sentimos, quando levamos mais tempo no aeroporto, a ser apalpados e radiografados, do que na própria viagem.
Todos se queixam da morosidade da nossa Justiça, e ainda agora, para reforçar essa ideia, foi anunciado que um célebre processo tinha prescrito, ao fim de dezassete anos. Nem era preciso prescrever: já nos tínhamos esquecido.
Mas há outras formas de aplicar a Justiça, que entraram no imaginário público, e até em jeito de ditado popular. Quem não ouviu falar da “Justiça de Fafe”, ou no caso do “Juiz de Mortágua”?
No primeiro caso, o Visconde de Moreira de Rei, também conhecido por “Barão de Espalha Brasas”. Deputado às Cortes, terá chegado atrasado a uma sessão, pelo que outro deputado, um marquês, lhe chamou "cão tinhoso". Finda aquela, Visconde exigiu desculpas, mas o adversário, em vez de lhe pedir desculpa, atirou-lhe com as luvas à cara, desafiando-o para um duelo. Competindo ao ofendido escolher as armas, o visconde apresentou-se para o recontro munido de dois varapaus bem nortenhos, em vez de pistolas ou espadas. Perito na arte do jogo do pau, tradicional na região, zurziu o seu opositor. O povo que assistia, rindo, não se conteve e gritou: "Viva a Justiça de Fafe!". Facto ou lenda, a verdade é que foi inaugurado em 1981, junto ao Tribunal de Fafe, um monumento representando um homem a bater noutro com um pau, talvez insinuando que, quando a justiça oficial não funciona, a mão popular pode agir supletivamente. Sem perigo de prescrições.
O caso de Mortágua é bem diferente. João Menga havia sido nomeado como Juiz de Fora, e parece que se distinguiu pela sua parcialidade e corrupção, ou pelo menos dessa fama não se livrou. No dia 24 de Novembro de 1365, a população exasperada invadiu a casa do Juiz; este tentou escapar pelas traseiras, mas foi apanhado, morto e lançado ao rio Criz. O seu cadáver nunca apareceu, por má vontade ou por falta de um serviço de protecção civil, que ainda não existia. Quando foi feita a devassa, à pergunta “Quem matou o Juiz?”, os populares tiveram uma resposta unânime: “Foi Mortágua!”. Ainda hoje há em Mortágua quem reaja mal à pergunta “Quem matou o juiz?”, mas não está previsto nenhum monumento alusivo.
A justiça popular continua a ser aplicada em Portugal, mas agora de numa maneira mais soft. Já não zurzindo ou estrangulando juízes ou acusados, mas julgando-os na praça pública, nos jornais, nas assembleias, no telejornal da hora nobre. Sem contraditório, porque a acusação permanece, isenta de provas; de modo contrário, as provas da inocência não têm qualquer valor. Não resta ao acusado outra saída senão recorrer também à praça pública, e assim regressamos os tempos da ágora dos gregos ou do fórum dos romanos, deixando a resolução dos casos, não aos magistrados ou à communis opinio doctorum (opinião comum aos doutores), mas aos melhores oradores, os que seduzem as multidões. Dito de outra forma, aos demagogos.
Também Além Atlântico se recorreu a formas expeditas de aplicação de Justiça, desde o tempo dos pioneiros até à pouco mais sofisticada “Lei de Lynch”. Esta “lei” surgiu em 1782, durante a Guerra da Independência americana, e destinava-se a punir os “lealistas” – os que eram fiéis à Inglaterra, e contra a independência dos EUA. Fazia-se através de julgamentos sumários por um tribunal ad hoc, e as penas eram pesadas. Distinguiu-se neste regime o comandante Charles Lynch, e daí a origem do termo “linchamento”. Finda a guerra, o método continuou como forma de justiça directa, para reprimir marginais e minorias étnicas, ficando famosa a frase “dêem-me uma corda, que eu próprio o enforcarei”.
As movimentações populistas, novamente em voga, têm como princípio o desacreditar das instituições, nomeadamente os Governos, os Parlamentos e os Tribunais. Quanto a estes últimos, em Portugal, isto é fácil, como se sabe.
Decerto que as Instituições se põem a jeito nesta contestação. Por um reflexo corporativo, defendem-se do que consideram um ataque externo. Médicos encobrem outros médicos, militares outros militares, polícias outros polícias, padres outros padres, professores outros professores. Sem se dar conta que, em vez de proteger a Instituição, estão a miná-la, dando cobertura a maçãs podres de que nenhuma instituição está isenta.
De modo que as diatribes da actual administração americana contra os juízes “que nem sequer foram eleitos” inserem-se nesta campanha. A Democracia é aqui invocada porque convém, e não por convicção. A Constituição foi democraticamente aprovada e ampliada, mas não vem ao caso.
O que importa é fazer o julgamento na praça pública. E, se Donald Trump & Associates conhecessem melhor a estória portuguesa, teriam uma base doutrinária para resolver o problema dos juízes renitentes.
Lançariam a Operação Dead Water, tradução literal de Mortágua.
Nuno Santa Clara













