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Do Soldado ao SolnadoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Num m Mundo assolado por várias guerras, qual delas mais sanguinária, recordar a “Guerra de 1908” do saudoso Raul Solnado pode parecer, no mínimo, de péssimo gosto.
Mas, no meio destes conflitos, surgem situações algo anómalas, pelo menos pelos conceitos sisudos que regem a pior actividade do Homem – a Guerra.

3 min de leitura
Do Soldado ao Solnado Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Não me refiro às chacinas de Gaza ou do Sudão do Sul (por vezes esquecido), nem à guerra de desgaste da Ucrânia, esta com contornos que lembram a Batalha de Verdun (1916), com o mesmo método de sangrar o adversário, jogando com o potencial demográfico para desequilibrar o impasse nas operações. Na altura, von Falkenhaym raciocinara assim: nós vamos perder meio milhão, e os franceses um milhão; como a população alemã é o dobro da francesa, perderão na proporção de quatro para um. Assim simples.
A guerra mais curiosa foi a Israel-Irão. O ataque, de surpresa, a alvos iranianos precisos, decorreu com eficácia, e até com danos colaterais reduzidos.
Note-se que o caso de Gaza não serve de referência, porque aí a população é o próprio objectivo.

Interessantes foram as declarações dos EUA, demarcando-se e até censurando a iniciativa, quando qualquer leigo tem a noção de que os bombardeamentos só foram possíveis com apoio de informações dos americanos, bem como o reabastecimento, em terra ou no ar, dos aviões israelitas. Até que Donald Trump, com a discrição e diplomacia que se conhece, anunciou triunfante que “nós dominamos os céus do Irão”.
“Nós”? Rabo escondido com o gato de fora!
Depois foi a resposta iraniana, mostrando que o Iron Dome tinha buracos (10% dos mísseis furaram as defesas) e sobretudo o ataque ao Qatar, com aviso prévio, de modo a preparar as contramedidas e evitar que alguém ficasse ferido. Como tinha já antes acontecido anteriormente num ataque a Israel, assim transformado em aviso, para bem de todos. Evitando uma escalada, que a ninguém beneficiaria.

Tomando finalmente, de forma oficial, o comando das operações, os EUA tiverem de refrear o seu Fiel Aliado, para o que bastou a ameaça de retirada do apoio.
E assim temos que os soldados fizeram a sua parte, que seria para comemorar se não fossem as baixas, independentemente de que lado se deram. E fizeram-no bem, facilitando o atingir dos objectivos políticos, que são as razões das guerras, e com reduzido custo humano.

Com a curiosidade de a contenção ter sido mais visível do lado do “Eixo da Mal” do que do Fiel Aliado. Mais uma discrepância.
De modo que a guerra passou das operações militares para o campo dos comunicados, agora mais animados com as guinadas do Presidente dos EUA.
Um dos comunicados foi o anúncio da vitória, feito pelo Comandante Supremo do Irão. Dir-se-ia uma aquelas declarações pomposas de vitória moral de um clube de futebol derrotado no relvado.

Mas, se das negociações levarem à situação do acordo de Barack Obama de 2015, entre o Irão e os EUA (e mais seis países - acordo esse anulado por Trump em 2018) pode dizer-se que o Aiatolah Ali Khamenei tinha razão, porque um objectivo foi atingido.
Pelo que voltamos à Guerra de 2008, e ao tal prisioneiro que não quis vir.
Que saudades, Raul!

Nuno Santa Clara

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