Saltar para o conteúdo
Colunistas

Sentido inversoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Há cerca de um século, a Europa, no rescaldo da I Grande Guerra, assistiu a uma série de movimentações sociais e políticas que pareciam – e eram – uma inversão de tendência das orientações traçadas pela Revolução Gloriosa (1688) na Inglaterra, da Guerra de Independência Americana (1776) e da Revolução Francesa (1789), no sentido da democratização das sociedades.

7 min de leitura
Sentido inverso Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

A par disso, o Nacionalismo, apoiado pelo Romantismo, ajudou a desmembrar três Impérios, o alemão, o austríaco e o turco, libertando os povos politicamente subjugados, mas, dentro deles, as questões sociais foram ficando adiadas.
Assistiu-se após o fim da guerra a uma vaga de fundo, que levou a que, nas vésperas da II Guerra Mundial, os únicos países democráticos da Europa fossem o Reino Unido, a França, a Checoslováquia, os do Benelux e os países Escandinavos. Todos os outros tinham regimes autoritários, em diversos graus.

Tendência com início na Itália, onde Mussolini conquistou o poder através da “Marcha sobre Roma” (1922). Vitória fácil, por conivência do Rei Vítor Emanuel III, e falta de oposição organizada.
O exemplo parecia exequível, o que levou Adolf Hitler a tentar um golpe de estado em 1923, em Munique (o “Putsch da Cervejaria), que foi abafado à nascença. Hitler foi preso, e escreveu na prisão grande parte do seu livro Mein Kampf (A minha Luta). Libertado, optou por respeitar as regras constitucionais para chegar ao poder. Após anos de desordem nas ruas (nazis contra comunistas), o partido nazi foi subindo nas votações, embora sem maioria absoluta, mas tendo mesmo sido o mais votado em 1932. O Presidente von Hindenburg nomeou Hitler Chanceler (Primeiro Ministro). Quatro semanas depois, o incêndio do Reichstag (Parlamento), alegadamente por um jovem comunista holandês, deu a Hitler o pretexto para não só proibir o partido comunista, mas também instalar uma concentração política una, sob a égide do Partido Nazi. Neste partido, o chefe das Sturmabteilung (SA - Secções de Assalto), Ernest Rhöhm, pretendia integrar o Exército nas SA, o que levou Hitler a criar uma outra força de segurança, o Schutzstaffel (SS), chefiado por Heinrich Himmler. Em 1934, tomou a decisão de eliminar a liderança das SA com a ajuda da SS, chefiada por Himmler e Reinhard Heydrich. Rhöhm e seus sequazes foram presos e assassinados e a liderança das SA expurgada pelas SS, com a desculpa oficiosa de que “o Partido se desfazia dos seus homossexuais” (caso notório de Rhöhm).

Hitler mantinha assim o respeito pelas Forças Armadas, indispensáveis para a futura f guerra, bem como o apoio dos grandes industriais, que aliás o tinham financiado, e de quem precisava para o rearmamento e relançamento económico.
Não há dois percursos iguais na tomada do poder. Isso aprendeu à sua custa Che Guevara, quando quis repetir na Bolívia o “foco” da Sierra Madre de Cuba.
Muitos historiadores e sociólogos se têm debruçado pela chegada ao poder dos regimes autoritários, distinguindo-se entre eles Hannah Arendt. Tipificam-se situações e enumeram-se sintomas, mas parece que há muitos distraídos.
São abundantes as acusações a Donald Trump de atropelos a preceitos constitucionais, regras e acordos internacionais e à vivência de dois séculos da Democracia americana, além das faltas de educação, erros gramaticais e falhas na Geografia.
Quanto ao respeito pela verdade, até há quem contabilize quantas mentirinhas vai largando, mas aí há talvez uma boa razão. Como disse Churchill, nunca se mente tanto como antes das eleições, durante a guerra e depois da caça. Considerando-se Trump em estado de guerra, incluindo a caça aos adversários, reais ou imaginários, estão justificados os seus deslizes.
Mas é importanteconstatar alguns sintomas clássicos das derivas autoritárias:

• Radicalização do discurso político;
• Recurso ao insulto, em vez do argumento;
• Pôr em causa o sistema legal, democraticamente instituído;
• Contestar eleições, mesmo sem prova de fraude;
• Escolher minorias como bode expiatório, motivadoras do discurso racista e xenófobo;
• Constituir milícias ou grupos de arruaceiros para promover a desordem, aparecendo depois como campeões da ordem.
• Dividir os cidadãos entre “nós” e “eles”, não como adversários cordiais, mas como inimigos irreconciliáveis.
• Procurar um líder carismático, dotado de infalibilidade.

Se atendermos ao princípio do determinismo, segundo o qual “as mesmas causas, nas mesmas circunstâncias, o produzem os mesmos efeitos”, e à regra de Bismarck, pela qual, “em política, o que parece, é”, podemos examinar com maior nitidez o que se vai passando na América.

Dentro dos sintomas acima enumerados, chamamos a atenção para um caso significativo.
As Forças Armadas americanas têm um relacionamento especial com as sociedades civil e política. Nascidas de uma Revolução e de uma Guerra de Independência, os quadros militares ocuparam naturalmente a direcção do país, nos primeiros tempos. Depois, a Guerra Civil, ou da Secessão Americana (1861-1865) devastou o país, mas levou a uma normalização da via democrática que serviu de orientação até em muitas outras paragens. E impôs-se o princípio da não participação dos militares na política. Com as excepções de Theodore Roosevelt (embora civil) e do General Eisenhower, não houve mais Presidentes militares ou heróis de guerra. E as Forças Armadas ficaram articuladas pelas Guardas Nacionais, dependentes dos Estados Federais, e os quatro Ramos das FA (Exército, Marinha, Força Aérea e Fuzileiros) estão dependentes directamente do Governo Federal, ou seja, do Presidente. Este pode, quando assim o entender, assumir o comando directo das Guardas Nacionais, subtraindo-as ao controlo dos governadores estaduais, o que o por vezes aconteceu, em caso de guerra ou de conflito entre poderes. Essas intervenções podem ter origem política, com a federalização da Guarda Nacional do Alabama, quando o Governador Wallace se recusou a aceitar a integração racial (1962), imposta por lei federal.

As relações de Trump com os militares são mistas, variando do enaltecimento e demonstração de apreço à crítica rondando o insulto, em ambiente restrito. Como fez numa recente reunião com militares, censurando-os por não ganharem guerras e referindo-se até que via por ali muitos gordos, e aconselhava todos a treinar para a nova frente de combate, que seria, não no exterior, mas nas ruas e praças das cidades americanas. Seguindo o exemplo de envio da Guarda Nacional de um Estado, sob comando federal, para actuanoutro Estado, sem que este o pedisse e mesmo contra a sua vontade expressa. Há cem anos teria resultado numa guerra civil – mas, nessa altura, ainda não se sabia qual era o resultado disso.

Outros indícios de uma aproximação a um sistema autoritário à margem da Constituição, são as declarações de dois antigos conselheiros (Steve Banon e John Bolton), sobre e reeleição de Trump (impedida por Emenda Constitucional) em como isso poderia ser ultrapassado, e o bem da América está acima de tudo. Ou seja, lá está o Homem Providência, ou por ela enviado.
Dentro dessa tendência, a reorientação das Forças Armadas do inimigo externo para o interno é interessante, porque mostra o percurso inverso de Hitler: este tinha as SA e as SS, mas precisava das Forças armadas para a guerra externa; Trump tem as Forças Armadas, mas quer fazer delas uma espécie de milícia (como os Minutemen do livro profético de Sinclair Lewis), como umas SA para dominar as ruas.

O que sobrar, vai para uma renovada doutrina de Monroe: America for Americans, incluindo o Canadá, a Gronelândia e Américas Central e do Sul. Para isso já enviou uma Task Force com porta-aviões para afundar lanchas suspeitas de narcotráfico (aqui o “suspeito” é semelhante ao do Terror Vermelho da Revolução Francesa: tem de provar a sua inocência, se tiver oportunidade).

Nuno Santa Clara

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção