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Colunistas

Grandes manobrasPor Nuno Santa Clara
Barreiro

O anúncio do envio de uma força naval para as Caraíbas, cerca da costa da Venezuela, atingiu uma dimensão mediática pouco usual em operações militares em áreas aparentemente tranquilas. O que nos leva a pensar nos objectivos deste “gesticular” americano.

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Grandes manobras Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Uma força com um porta-aviões de ataque ( com cerca de cem aeronaves), mais um navio de assalto anfíbio, mais destroieres e escoltas, além de navios de apoio logístico, parece desmesurado para um modo de combate ao narcotráfico. Lá como cá, são usadas lanchas “voadoras”, traineiras, iates, pequenos aviões e até mini-submarinos.
Puro engano. Se se pretende dissuadir qualquer reacção do adversário visado, melhor é paralisá-lo por força esmagadora. Tudo isto está nos livros, mas será este o caso?

O insólito está na escolha do inimigo. México, Colômbia, Equador e outros países são bem conhecidos pelo narcotráfico; a Venezuela, nem por isso – o que não quer dizer que não o faça: é uma questão de escala.
A Venezuela tornou-se um país autocrático, de relacionamento difícil, pródigo em comícios e paradas, em que a figura tutelar de Nicolás Maduro brilha pelo lado folclórico (não é o único), e com o efeito prático da forte recessão da economia e, para nós, ver os nossos industriosos emigrantes regressar em massa a Portugal, extinta que foi a árvore dos bolívares.

O recurso a intervenções militares na América Latina está na melhor tradição dos EUA, sobretudo na América Central, onde que se contam por dezenas, desde que a Doutrina de Monroe passou das fronteiras dos próprios EUA para englobar todo o chamado Hemisfério Ocidental, que agora com Trump inclui o Canadá e a Gronelândia.
A Venezuela não é um pequeno país. Derivou da Grande Colômbia, formada pelas lutas das colónias espanholas pela independência, após as Guerras Napoleónicas (tal como o Brasil). A divisão dessa Grande Colômbia deu origem à actual Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia e Panamá. Embora com tradição militar, desde a guerra de independência, há dois séculos que não regista conflitos com o exterior.

É uma das maiores Forças Armadas do continente sul-americano, com aproximadamente 125.000 militares no activo e cerca de 200.000 milicianos
A Força Aérea dispõe de 22 caças Su-30 russos modernos, 16 caças F-16 americanos (eventualmente com problemas logísticos), alguns Mirage III franceses, 24 aviões de ataque ao solo K-8VV chineses e 10 de ataque ao solo EMB-312V. A Marinha dispõe de 6 fragatas tipo Lupo italianas, parte delas desactivadas, 2 submarinos tipo U-209 alemães e 4 corvetas espanholas ainda em produção.

O Exército dispõe de 92 carros de combate T-72, 123 blindados BMP-3, 81 carros de combate AMX-30 franceses, mísseis russos antiaéreos S-300 russos e terra-terra Iskander, entre outros.
Fácil é prever que, num conflito directo, a aviação e a marinha venezuelanas seriam neutralizadas, quase só pelos meios americanos presentes, com apoio de outros baseados em Porto Rico e no Sul dos EUA.
Já uma operação terrestre, “botas no solo”, poderia complicar-se. Apesar da superioridade tecnológica, sobretudo em informações, comando e controlo, vários teatros de operações mostraram que nem sempre é suficiente, como se viu no Vietname e no Afeganistão. O navio de assalto anfíbio pode colocar de imediato dois batalhões de Marines em terra, o que é manifestamente insuficiente.

O essencial está na vontade da defesa, por parte de um exército que há dois séculos só se envolveu em lutas internas civis, e qual a atitude da população, para além dos slogans da propaganda. Lembremos aqui dois casos. Em 1940, face à derrocada iminente na França, Churchill foi a Paris e propôs a passagem da França à Resistência. A resposta do PM Paul Reynaud foi lapidar: a Resistência não de decreta! De facto, levou anos a organizar-se. Inversamente, poderíamos ver tomar forma uma velha palavra de ordem de Che Guevara: crear dos, tres, muchos Vietname es la consigna!

Ora, o objectivo apregoado por Trump era combater o narcotráfico, e para isso os actuais meios nas Caraíbas chegam e sobram. E, de facto, os mediatizados ataques às “voadoras”, com a eliminação total e aplaudida das tripulações, são tarefa fácil. Uma vez que ninguém as usa para pescar atum, as voadoras facilmente identificadas são destruídas, por meios ao nosso alcance, usando ataques de precisão e segundo a lógica do Faroeste: dispara primeiro, e nem perguntes depois. Uma espécie de ataque a alvos móveis, como no tiro aos pombos.
A base legal para estes ataques é a mesma: tenho os meios e uso-os. Ponto.
Mas poucos choram lágrimas de crocodilo. Decerto não os familiares do nosso guarda GNR morto no Guadiana por uma voadora, bem como os seus camaradas de armas. E os narcotraficantes não têm muitos amigos. Conhecidos e clientes, sim.

Mas o curioso é terem sido atacadas voadoras no Pacífico, provavelmente ao largo da Colômbia. É que a Venezuela não tem acesso àquele oceano. Para lá chegar, os aviões e/ou helicópteros da frota das Caraíbas teriam de sobrevoar a Colômbia ou o Panamá, e tal não foi referido. Portanto, há também meios a actuar no Pacífico. E, recordemos, as coisas andam tensas entre os americanos e chineses à volta do Canal do Panamá, que, após um século de ocupação, foi entregue a este país em 1999 pelo Jimmy Carter, e que o actual Presidente quer “recuperar”.
Pelo que o petróleo voltou à baila, como sempre esteve, agora com a apreensão de dois petroleiros por militares americanos, usando a mesma legitimidade e técnica dos Guardas da Revolução iranianos no Golfo Pérsico: tenho os meios e uso-os. Ponto.
Postas as questões nos termos certos, petróleo e Canal o Panamá, veremos como se desenrolarão as Grandes Manobras.

Nuno Santa Clara

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